sexta-feira, 3 de maio de 2013

Lendas dos Orixás: Oxalá - Obatalá - Orixanlá - Oxalufã(*)

ORIXANLÁ CRIA A TERRA
Oxalá por Carybé
No começo, o mundo era todo pantanoso e cheio d’água,
um lugar inóspito, sem nenhuma serventia.
Acima dele havia o Céu, onde viviam Olorum e todos os orixás,
que ás vezes desciam para brincar nos pântanos insalubres.
Desciam por meio de teias de aranha penduradas no vazio.
Ainda não havia terra firme, nem o homem existia.
Um dia Olorum chamou à sua presença Orixanlá, o Grande Orixá.
Disse-lhe que queria criar terra firme lá embaixo
e pediu-lhe que realizasse tal tarefa.
Para a missão, deu-lhe uma concha marinha com terra,
uma pomba e uma galinha com pés de cinco dedos .
Orixanlá desceu ao pântano e depositou a terra da concha.
Sobre a terra pôs a pomba e a galinha
e ambas começaram a ciscar.
Foram assim espalhando a terra que viera na concha
até que terra firme se formou por toda parte.
Orixanlá voltou a Olorum e relatou-lhe o sucedido.
Olorum enviou um camaleão para inspecionar a obra de Oxalá
e ele não pôde andar sobre o solo que ainda não era firme.
O camaleão voltou dizendo que a Terra era ampla,
mas ainda não suficientemente seca.
Numa segunda viagem o camaleão trouxe a notícia
de que a terra era ampla e suficientemente sólida,
podendo-se agora viver em sua superfície.
O lugar mais tarde foi chamado de Ifé, que quer dizer ampla morada.
Depois Olorum mandou Orixanlá de volta à Terra
para plantar árvores e dar alimentos e riquezas ao homem.
E veio a chuva para regar as árvores.
Foi assim que tudo começou.
Foi ali, em Ifé, durante uma semana de quatro dias(**),
que Orixá Nlá criou o mundo e tudo o que existe nele.

(**) A semana iorubá tem quatro dias. 
A cidade de Ifé é considerada pelos
 iorubás o berço da humanidade.


OXALÁ CRIA A GALINHA D'ANGOLA(***) E ESPANTA A MORTE
fonte da imagem:silnunesprof.blogspot.com.br

Há muito tempo, a Morte instalou-se numa cidade
e dali não quis mais ir embora.
A mortandade que ela provocava era sem tamanho
e todas as pessoas do lugar estavam apavoradas.
A cada instante tombava mais um morto.
Para a Morte não fazia diferença alguma
se o defunto fosse homem ou mulher,
se o falecido fosse velho, adulto ou criança.
A população, desesperada e impotente, recorreu a Oxalá,
rogando-lhe que ajudasse o povo daquela infeliz cidade.
Oxalá, então, mandou que fizessem oferendas,
que ofertassem uma galinha preta e o pó de giz efum.
Fizeram tudo como ordenava Oxalá.
Com o efum pintaram as pontas das penas da galinha preta
e em seguida a soltaram no mercado.
Quando a Morte viu aquele estranho bicho,
assustou-se e imediatamente foi-se embora,
deixando em paz o povo daquela cidade.
Foi assim que Oxalá fez surgir a galinha d'angola.
Desde então, as iaôs, sacerdotisas dos orixás, são pintadas como ela
para que todos se lembrem da sabedoria de Oxalá
e da sua compaixão.

Iaôs por Carybé

(***) Referência ao rito conhecido no candomblé como "saída de iaô", quando o iniciado é apresentado à comunidade com o corpo pintado de pequenos círculos brancos feitos de efum e usando na cabeça a pena ecodidé; em homenagem a Oxalá.

(*)Oxalá = Grande Orixá; outro nome para Obatalá; nome preferencial de Obatalá no Brasil.

(*)Obatalá = literalmente, Rei do Pano Branco; orixá da Criação; criador do homem; considerado o maior dos orixás.

(*)Orixalá = Orixá Nlá, o grande orixá; outro nome para Oxalá. Forma pela qual Oxalá ou Orixanlá é referido na nação nagô do xangô pernambucano.    

(*) Oxalufã = Oxalá velho; nome pelo qual Obatalá é referido no Brasil.


Fonte: Mitologia dos Orixás - Reginaldo Prandi - Cia. das Letras

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Artesanato mineiro: arte de encher os olhos

Ontem em comemoração ao 1º de Maio e ao dia de São José Operário, o programa Sabor de Vida nos brindou com a reprise do especial que foi ao ar em Março passado, gravado nas cidades Ouro Preto, Alpinópolis e Bichinho, mostrando a riqueza do nosso artesanato.
Modéstia à parte, dá um orgulho danado de ser mineira.
Ô terra boa!
Confira este belíssimo programa!



quarta-feira, 1 de maio de 2013

Lendas dos Orixás: Oxaguiã - Ajagunã

OXAGUIÃ(*) INVENTA O PILÃO
Oxaguiã by Carybé

Oxalá, rei de Ejigbô, vivia em guerra.
Ele tinha muitos nomes, 
uns o chamavam de Elemoxó, outros de Ajagunã, 
ou ainda Aquinjolê, filho de Oguiriniã. 
Gostava de guerrear e de comer.
Gostava muito de uma mesa farta.
Comia caracóis, canjica, pombos brancos, 
mas gostava mais de inhame amassado.
Jamais se sentava para comer se faltasse inhame.
Seus jantares se estavam sempre atrasados, 
pois era muito demorado preparar o inhame, 
Elejigbô, o rei de Ejibô, estava assim sempre faminto, 
sempre castigando as cozinheiras,
sempre chegando tarde para fazer a guerra.
Oxalá então consultou os babalaôs, 
fez oferendas a Exu
e trouxe para humanidade uma nova invenção. 
O rei de Ejigbô inventou o pilão 
e com o pilão ficou mais fácil preparar o inhame
e Elejigbô pôde se fartar 
e fazer todas as suas guerras.
Tão famoso ficou o rei por seu apetite pelo inhame 
que todos agora o chamam de 
"Orixá Comedor de Inhame Pilado",
o mesmo que Oxaguiã na língua do lugar.


(*) Oxaguiã = Oxalá jovem; orixá da Criação; inventou o pilão para comer inhame mais facilmente, criandoassim a cultura material. No Brasil e em Cuba é considerado uma qualidade de Oxalá; na África é o orixá que teria sido rei de Ejigbô, o Elejigbô.


AJAGUNÃ(*) DESTRÓI PALÁCIOS PARA O POVO TRABALHAR

Ajagunã, o filho guerreiro de Oxalá,
andava junto com Ogum fazendo a guerra.
Onde Ogum destruía uma cidade,
Ajagunã construía outra maior e mais próspera.
Conquistavam para seu povo todos os campos de inhame
e todas as riquezas em ouro e escravos.
O jovem Oxalá não tinha descanso,
estava sempre provocando novas situações,
obrigando todo mundo a trabalhar e progredir.
Onde a paz resultava em calmaria e preguiça
ele provocava a discórdia e o movimento,
ninguém podia se acomodar na presença de Ajagunã.

Um dia, entre uma batalha e outra,
Ajagunã foi à cidade de Ogum em busca de munição.
Lá chegando, viu que o povo festejava.
Tinham acabado a construção de um palácio novo,
que ofereciam para o seu rei Ogum.
A eles perguntou Ajagunã:
"Que fazeis agora que o palácio está feito?"
Responderam eles:
"Descansamos de nosso feito. Festejamos".
Disse Ajagunã:
 "Vosso rei está em guerra e tardará.
Aproveitai o tempo e fazei um trabalho melhor.
Um palácio mais belo e resistente,
do qual ele haverá de mais se orgulhar".
E tocou a parede do palácio com sua espada
e o palácio ruiu.
Ajagunã voltou para a guerra
e quando, de outra feita, à cidade retornou,
lá estava o palácio refeito,
maior, mais imponente, mais bonito.
Ao povo que comemorava com festas
a conclusão da nova fortaleza de Ogum,
perguntou Oxalá Ajagunã:
"Que fazeis agora que o palácio está feito?"
Responderam eles:
"Descansamos do nosso feito. Festejamos".
Disse Ajagunã:
"Vosso rei está em guerra e tardará.
Aproveitai o tempo e fazei um trabalho melhor.
Um palácio mais belo e resistente,
do qual ele haverá de se orgulhar".
E derrubou o palácio de novo.
E tantas vezes isso se repetiu
que os habitantes daquela cidade se transformaram
num povo de grandes construtores
e sua engenharia é reconhecida até os dias de hoje.
Porque Ajagunã não gosta de ver ninguém parado.

(*) Ajagunã = título com o significado de grande guerreiro; outro nome para Oxaguiã,
 o Oxalá jovem e guerreiro que inventou o pilão.



OXAGUIÃ ENCONTRA IEMANJÁ E LHE DÁ UM FILHO

Houve um tempo em que os orixás viviam do outro lado do oceano.
Mas depois tiveram que vir para o lado de cá,
para acompanhar seus filhos que foram trazidos como escravos.
Assim vieram todos e assim veio Oxaguiã.
Oxaguiã veio boiando na superfície do mar,
navegando no tronco flutuante de uma árvore.
A travessia durou muito tempo, mas de um ano.
Foi nessa viagem que Oxaguiã conheceu Iemanjá,
que era dona do próprio mar em que viajava Oxaguiã.
Logo se conheceram e logo se gostaram.
Oxaguiã era moço, forte, corajoso;
Iemanjá era mulher bonita destemida e sedutora.
Iemanjá engravidou de Oxaguiã
e nove meses depois deu a luz à um menino,
que já nasceu valente e forte, querendo guerrear.
Mais tarde chamaram o menino de Ogunjá.
Sempre que ia à guerra, a mãe o acompanhava
e então todos a chamavam Iemanjá Ogunté.
Oxaguiã, Ogunté e Ogunjá formam uma família de guerreiros.
E eles são muitos festejados no Brasil.


Fonte: Mitologia dos Orixás - Reginaldo Prandi - Cia. das Letras

terça-feira, 30 de abril de 2013

Lendas dos Orixás: Ajalá (o oleiro primordial) e Ori

AJALÁ(*) MODELA A CABEÇA DO HOMEM


Odudua criou o mundo, 
Obatalá criou o ser humano.
Obatalá fez o homem de lama,
com corpo, peito, barriga, pernas, pés.
Modelou as costas e os ombros, os braços e as mãos. 
Deu-lhe ossos, pele e musculatura. 
Fez os machos com pênis 
e as fêmeas com vagina, 
para que um penetrasse o outro
e assim pudessem se juntar e se reproduzir.
Pôs na criatura coração, fígado e tudo o mais que está dentro dela,
inclusive o sangue. 
Olodumare pôs no homem a respiração 
e ele viveu. 
Mas Obatalá se esqueceu de fazer a cabeça
e Olodumare ordenou a Ajalá que completasse 
a obra criadora de Oxalá.
Assim, é Ajalá que faz as cabeças de dos homens e mulheres. 
Quando alguém esta para nascer,
vai à casa do oleiro Ajalá, o modelador de cabeças.
Ajalá faz as cabeças de barro e as cozinha no forno. 
Se Ajalá está bem, faz cabeças boas. 
Se está bêbado, faz as cabeças mal cozidas, 
passadas do ponto, malformadas. 
Cada um escolhe sua cabeça para nascer.
Cada um escolhe o ori(**) que vai ter na Terra.
Lá escolhe uma cabeça para si. 
Cada um escolhe seu ori. 
Deve ser esperto, para escolher cabeça boa. 
Cabeça ruim é destinho ruim, 
cabeça boa é riqueza, vitória, prosperidade,
tudo o que é bom.

(*) Ajalá =  orixá da Criação, é encarregado de fabricar as cabeças, ori; 
está esquecido no Brasil e Cuba.
(**) ori =  cabeça, destino.


Ajalá modela a cabeça do homem. Wande Abimbola, 1975, pp. 32-3, 125-32. 
Ajalá está esquecido no Brasil, tendo sido substituído por Iemanjá, a dona das cabeças, a quem se canta, no xirê, quando os iniciados tocam a cabeça com as mãos para lembrar esse domínio, e na cerimônia de sacrifício à cabeça (bori), rito que precede a iniciação ao orixá daquela pessoa. A cabeça, o ori, é associada ao destino, que não pode ser mudado, e mesmo a infelicidade é entendida como consequência de uma escolha mal feita. Em Cuba, conforme vários mitos, Odudua teria feito as cabeças, as quais são cultuadas no assentamento individual de cada iniciado da entidade denominada Ossum, que na mitologia africana é uma das mulheres de Orunmilá. Não confundir com Oxum. 


ORI(*) LIVRA ORUNMILÁ DE AMEAÇAS
Ori
Orunmilá estava um dia distraído
e de repente deu-se conta que era observado
por Morte, Doença, Perda, Paralisia e Fraqueza.
Orunmilá ouviu o que diziam,
que elas diziam umas às outras:
"Um dia a gente pega este aí".
Elas riam desavergonhadamente,
plantavam bananeira,
faziam micagens e gestos obscenos.
"Mais cedo ou mais tarde a gente pega este aí."
Orunmilá assustou-se.
Orunmilá voltou para casa.

Orunmilá foi consultar o seu Ori.
Somente Ori podia salvar Orunmilá.
Somente Ori podia livrar da Morte.
Só a cabeça poderia livrá-lo da Doença.
Era o Ori que o livraria da Perda.
O Ori de Orunmilá o livraria da Paralisia.
Somente seu Ori podia livrá-lo da Fraqueza.
Orunmilá foi consultar sua cabeça.
O Ori livra o homem dos males.
Orunmilá fez os sacrifícios à cabeça, fez bori(**).
Ori aceitou as comidas oferecidas,
ficou forte e expulsou os problemas de Orunmilá.
Nada mais podia ameaçar o seu devoto.
Ori salvou Orunmilá da Morte e da Doença,
da Perda, da Paralisia e da Fraqueza.
Ori livrou seu devoto de todas as ameaças.

(*) Ori = divindade da cabeça de cada indivíduo, recebe oferendas no ritual do bori.
(**) bori = sacrifício à cabeça; primeiro rito de iniciação no candomblé.

Ori livra Orunmilá de ameaças. Wande Abimbola, 1976, p.116.
O ritual do bori - literalmente, dar comida à cabeça - foi preservado no candomblé e é o sacrifício votivo que precede a iniciação sacrificial para o orixá. Antes do orixá, deve-se louvar a cabeça do devoto. Em iorubá os nomes da Morte, Doença, Perda, Paralisia e Fraqueza são: "Iku","Árùn", "Ófò","Ègbà", "Èsé".


Fonte: Mitologia dos Orixás - Reginaldo Prandi - Cia. das Letras

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Lendas dos Orixás: Orunmilá - Ifá - Orula

ORUNMILÁ RECEBE DE OBATALÁ O TÍTULO DE BABALAÔ 
Orúmila por Gil Abelha

Fazia muito tempo
que Obatalá admirava a inteligência de Orunmilá.
Em mais deu uma ocasião
Obatalá pensou em entregar a Orunmilá o governo do mundo.
Pensou em entregar a Orunmilá o governo dos segredos,
os segredos que governam o mundo
e a vida dos homens.
Mais quando refletia sobre o assunto
acabava desistindo.
Orunmilá, apesar da seriedade de seus atos,
era muito jovem para missão tão importante.
Um dia, Obatalá quis saber se Orunmilá
era tão capaz quanto aparentava
e lhe ordenou que preparasse a melhor comida
que pudesse ser feita.

Orunmilá preparou uma língua de touro
e Obatalá comeu com prazer.
Obatalá então, perguntou a Orunmilá por qual razão
a língua era a melhor comida que havia.
Orunmilá respondeu:
“Com a língua se concede axé(*),
se ponderam as coisas,
se proclama a virtude,
se exaltam as obras
e com seu uso os homens chegam à vitória”.
Após algum tempo, Obatalá pediu a Orunmilá
para preparar a pior comida que houvesse.
Orunmilá lhe preparou a mesma iguaria.
Preparou língua de touro.
Surpreso, Obatalá lhe perguntou como era possível
que a melhor comida que havia fosse agora a pior.
Orunmilá respondeu:
“Porque com a língua os homens se vendem e se perdem,
com a língua se destrói a boa reputação
e se cometem as mais repudiáveis vilezas”.
Obatalá ficou maravilhado com a inteligência
e precocidade de Orunmilá.
Entregou a Orunmilá nesse momento o governo dos segredos.
Orumilá foi nomeado babalaô,
palavra da língua dos orixás que quer dizer pai do segredo.
Orunmilá foi o primeiro babalaô.
 (*)axé = força mística dos orixás, força vital que transforma o mundo


ORUNMILÁ PREFERE A PACIÊNCIA À DISCÓRDIA E À RIQUEZA 
Orunmilá por Aurilda Sanches©
Orunmilá era um homem que nada sabia de seu passado ou futuro.
Ela nada tinha e mandaram que fizesse um ebó(**)
para que melhorasse suas condições de vida.
Assim feito.
Um dia, três mulheres vieram bater à sua porta.
Chamavam-se Paciência, Discórdia e Riqueza.
Todas queriam viver com Orunmilá, 
mas ele preferiu viver com Paciência.
As outras duas começaram a discutir por causa da escolha.
Uma dizia que a escolha de Orunmilá fora extravagante.
A outra dizia que isso era do gosto de cada um.
Como não se entendessem e se agredissem mutuamente,
trabalhadores das estradas mais próximas vieram separá-las.
Eles as levaram ao chefe local
e cada uma falou a seu modo do que acontecera.
Como ninguém podia testemunhar o fato,
levaram-nas até a casa do babalaô da aldeia,
o homem mais sábio do lugar,
o adivinho que poderia resolver a causa.
Quando elas o viram, disseram:
" É por causa deste homem que estamos brigando.
Porque ele ficou com Paciência
e desprezou a nós, Discórdia e Riqueza".
Então disse Orunmilá:
"Onde tem Paciência tem tudo.
Sem Paciência não podemos viver".
E disseram elas:
"Por isso vamos ficar com este homem,
porque onde tem Paciência tem tudo".
(**) ebó = oferenda


ORUNMILÁ TRAVA LONGA CONTENDA COM SEU ESCRAVO OSSAIM
Orunmilá-Ifá por Carybé
Orunmilá precisava de um escravo e foi ao mercado comprar um.
Entre todos, escolheu Ossaim.
Levou Ossaim para casa e o mandou desmatar
suas terras, onde deveria preparar o plantio.
Ossaim retornou sem ter cumprido as ordens de Orunmilá.
Questionado sobre o seu desmando, Ossaim explicou
que a maioria das ervas tinha o poder de cura
e assim não podia ser derrubada.

Orunmilá interessou-se por esse conhecimento
e nomeou Ossaim para acompanhá-lo nas sessões de adivinhação.
Não tardou para que as rivalidades surgissem,
principalmente porque Ossaim não aceitava ser submisso a Orunmilá.
Julgava-se mais importante que seu mestre.

Esse fato chegou aos ouvidos do rei Ajalaiê,
que resolveu submetê-lo a uma disputa,
para verificar quem era o mais antigo e mais importante.
Chamou-os e pediu que trouxessem seus filhos primogênitos.
Os dois seriam enterrados durante sete dias,
findos os quais seriam chamados.
Quem respondesse primeiro ao chamado seria declarado vencedor,
trazendo as honras para o pai.
O filho de Orunmilá chamava-se Sacrifício.
Orunmilá consultou Ifá para verificar se seu filho se salvaria.
Foi orientado a oferecer sacrifícios de comidas e animais.
Devia oferecer um coelho, um galo, e um bode,
além de um pombo e dezesseis búzios-da-costa.
As oferendas foram colocadas nos locais determinados,
dentre elas uma aos pés de Exu.
Com seu poder, Exu ressuscitou o coelho
e o coelho cavou um buraco
e levou alimento a Sacrifício, mantendo-o vivo.

O filho de Ossaim chamava-se Remédio.
Ele não tinha o que comer,
mas com feitiços poderosos conseguiu
chegar à casa de Sacrifício.
Pediu-lhe comida. Sacrifício negou.
Remédio propôs-lhe um pacto em troca da comida.
Ele manter-se-ia calado quando os chamassem.
Sacrifício aceitou e deu-lhe de comer.

Chegando o dia, ambos foram chamados,
mas somente Sacrifício respondeu ao apelo,
saindo vivo e vitorioso da cova.
Remédio saiu depois e Ossaim questionou o porquê de seu ato.
Ele contou ao pai sobre o pacto feito.
Orunmilá(***) ganhou e foi considerado mais importante que Ossaim,
porque o Sacrifício é mais eficaz que o Remédio.

(***)ORUNMILÁ = orixá do oráculo. Importantíssimo em Cuba, onde é chamado de ORULA, está praticamente esquecido no Brasil, exceto em alguns xangôs tradicionais de Pernambuco e em candomblés africanizados, em que seu culto vem sendo recuperado.

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Fonte: Mitologia dos Orixás - Reginaldo Prandi - Cia. das Letras

domingo, 28 de abril de 2013

Lendas dos Orixás: Oraniã

ORANIÃ(*) NASCE NEGRO E BRANCO E TEM DOIS PAIS

Ogum venceu a guerra contra Ogotum.
Do espólio da guerra trouxe sete escravas.
Uma delas era Lacangê, mulher de rara beleza.
Ogum amou-a em segredo, escondendo-a para si.
Mas seus falsos amigos revelaram o segredo a seu pai Odudua.
O pai ordenou a Ogum que trouxesse a escrava à sua presença.
Encantado com ela, Odudua a fez sua esposa.

Nove meses depois, Lacangê teve um filho.
O menino deixou a todos espantados.
Do lado direito, tinha a pele negra, como a de Ogum;
do lado esquerdo, a mesma pele alva de Odudua.
Ogum e Odudua entreolharam-se, sem nada dizer.
Esse menino recebeu o nome de Oraniã.
Um dia foi um grande guerreiro,
fundou o reino de Oió e foi pai de Xangô.


ORANIÃ CRIA A TERRA
Monolito em homenagem a Oraniã na cidade de Ifé.
Seu nome é Opa Òrànmíyàn(**).

No começo só havia água sob o céu
e nenhum ser vivente.
Olodumare, Deus Supremo, Senhor de Todas as Coisas,
criou primeiro sete príncipes e depois alguns artefatos.
Em sete sacos pôs búzios,tecidos, pérolas, pedras preciosas.
Criou um pano preto e nele embrulhou uma misteriosa substância.
Criou uma galinha e uma corrente e sete barras de ferro.
Na corrente pendurou os artefatos e os sete príncipes.
Pela corrente desceu tudo sobre as águas
e do alto do Céu deixou cair uma semente.
Da semente cresceu uma palmeira,
e a palmeira abrigou os sete príncipes.
Cada príncipe ganhou uma cidade para governar:
Oloú ganhou o reino de Egbá.
Onixabé, o reino de Savé.
Orangum foi o soberano de Ilá.
Oni, o rei de Ifé.
Ajerô recebeu Ijerô.
Alaqueto reinou em Queto.
Oraniã, o caçula, foi feito rei de Oió.

Antes de sair para suas cidades,
os irmãos repartiram entre si o que lhes havia dado Olodumate.
Os mais velhos ficaram com os búzios, o dinheiro,
com as pedras preciosas e as jóias,
os tecidos preciosos e outras riquezas.
O mais jovem, que era Oraniã, ficou com a galinha,
as sete barras de ferro e o embrulho de pano preto.
Quando Oaniã abriu o pano,
deparou com uma escura e estranha substância,
que jogou na água.
A substância boiou na superfície 
e a galinha, voando sobre o montículo,
pôs-se a ciscar a tal matéria.
O montículo cresceu e cresceu
e assim a Terra foi criada.
Oraniã desceu à Terra e tomou posse dela.
Mas os irmãos mais velhos viram a Terra
e pretenderam tomar posse dela.
Oraniã tomou suas sete barras de ferro como armas
e com elas defendeu a Terra da cobiça dos irmãos.
Oraniã venceu os irmãos e poupou suas vidas.
Todos foram reis.
Todos deveram subserviência a Oraniã.
Oraniã foi o grande rei de Oió,
e Oió, a capital de todas as cidades.

(*) Oraniã = orixá das profundezas da Terra, filho de Odudua e rei de Ifé.

(**) O  monumento lítico Opá Oraniã [Ọpà Ọrànmíyán] é um símbolo não só da cidade de Ifé-Ifé, considerada  o braço da civilização iorubá, mas da própria cultura desse povo.


Fonte: Mitologia dos Orixás - Reginaldo Prandi - Cia. das Letras

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Lendas dos Orixás: Odudua

ODUDUA(*) BRIGA COM OBATALÁ E O CÉU E A TERRA SE SEPARAM
imagem: Oduduwa em Mondo Yoruba

No principio de tudo, 
quando não havia separação entre o Céu e a Terra, 
Obatalá(**) e Odudua(**) viviam juntos dentro de uma cabaça. 
Viviam extremamente apertados um contra o outro,
Oduduá embaixo e Obatalá em cima.
Eles tinham sete anéis que pertenciam aos dois. 
À noite eles colocavam os anéis.
Aquele que dormia por cima sempre colocava quatro anéis
e o que ficava em baixo sempre colocava os três restantes.
Um dia Odudua, deusa da Terra, quis dormir por cima 
para poder usar nos dedos quatro anéis.
Obatalá, o deus do Céu, não aceitou.
Tal foi a luta que travaram os dois lá dentro
que a cabaça acabou por se romper em duas metades.
A parte inferior da cabaça, com Odudua permaneceu embaixo,
enquanto a parte superior, com Obatalá, ficou em cima,
separando-se assim o Céu da Terra.
No inicio de tudo, Obatalá, deus do Céu, 
e Odudua, deusa da Terra viviam juntos.
A briga pelos anéis os separou 
e separou o Céu da Terra.

ODUDUA É ENCARREGADO DE DOTAR OS HOMENS DE CABEÇA
 http://www.4shared.com/all-images/TfAP0DVC/Imagens.html

Quando Olodumare quis fazer o mundo,
desceu com Obatalá para realizar a sua obra.
No entusiasmo da Criação, Olofim fez coisas maravilhosas,
como as árvores, as nuvens, o arco-íris e os pássaros,
mas também teve fracassos e deixou as coisas pela metade.
Os homens, por exemplo, foram feitos sem cabeça
e a obra pareceu a Olofim imperfeita, inconclusa.
Incomodado com o desacerto, Olofim encarregou Odudua
de fazer cabeças para os homens.
Odudua fez as cabeças,
mas as deixou com apenas um olho.
Também não gostou do resultado Olodumare
e encarregou Obatalá de colocar dois olhos onde estão agora.
Foi ele que também deu aos homens uma boca,
além de ter-lhe dado a voz e as palavras que saem dela.
Os homens, então, passaram a ser como os conhecemos
e tudo parecia bem.

Hoje, no entanto, toda a Criação de Olofim
está ameaçada de destruição pela ação dos homens,
pois alguma coisa neles não funciona bem.
Não se sabe se foi por algum erro de Olofim,
ou se foi por algum descuido de Odudua.

(*) Odudua ou Odùdúwà = orixá da Criação; criador da Terra; masculino ou feminino.

(**) Na versão de 1884, a briga se deu pela falta de espaço dentro da cabaça; 
não cita anéis.
Outras variantes falam de Obatalá e Iemu, sua esposa. Na maioria dos mitos, Odudua é masculino, em outros feminino. Também Obatalá aparece ora masculino, ora feminino; no Brasil quase sempre considerado masculino e, em Cuba, feminino.


Fonte: Mitologia dos Orixás - Reginaldo Prandi - Cia. das Letras

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Lendas dos Orixás: Ajê Xalugá


AJÊ XALUGÁ CEGA OS HOMENS E TAMBÉM PERDE A VISÃO

Ajê Xalugá é a irmã mais nova de Iemanjá.
Ambas são as filhas prediletas de Olocum.
Quando a imensidão das águas foi criada,
Olocum dividiu os mares com suas filhas
e cada uma reinou numa diferente região do oceano.
Ajê Xalugá ganhou o poder sobre as  marés.
Eram nove as filhas de Olocum
e por isso se diz que são nove as Iemanjás.
Dizem que Iemanjá é a mais velha Olocum
e que  Ajê Xalugá é a Olocum caçula,
mas de fato ambas são irmãs apenas.
Olocum deu às suas filhas os mares
e também todo o segredo que há neles.
Mas nenhuma delas conhece os segredos todos,
que são os segredos de Olocum.
Ajê Xalugá era, porém, menina muito  curiosa
e sempre ia bisbilhotar em todos os mares.
Quando Olocum saía para o mundo,
Ajê Xalugá fazia subir a maré
e ia atrás cavalgando sobre as ondas.
Ia disfraçada sobre as ondas,
na forma de espuma borbulhante
que brilhava ao sol tão intensamente.
Tão intenso e atrativo era tal brilho
que às vezes cegava as pessoas que olhavam.
Um dia Olocum disse à sua filha caçula:
"O que dás para os outros tu também terás,
serás vista pelos outros como te mostrares.
Este será o teu segredo, mas saiba
que qualquer segredo é sempre perigoso".
Na próxima vez que Ajê Xalugá saiu nas ondas,
acompanhando, disfarçada, as andanças de Olocum,
seu brilho era ainda bem maior,
porque maior era seu orgulho, agora detentora do segredo.
Muitos homens e mulheres
olhavam admirados o brilho intenso das ondas do mar
e cada um com o brilho ficou cego.
Sim, o seu poder cegava os homens e as mulheres.
Mas quando Ajê Xalugá também perdeu a visão,
ela entendeu o sentido do segredo.
Iemanjá está sempre com ela,
quando sai para passear nas ondas.
Ela é a irmã mais nova de Iemanjá.


Fonte: Mitologia dos Orixás - Reginaldo Prandi - Cia. das Letras

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Lendas dos Orixás: Onilé


ONILÉ GANHA O GOVERNO DA TERRA
Onilé ilustação por Pedro Rafael para
para o livro Mitologia dos Orixás

Onilé (*)era a filha mais recatada e discreta de Olodumare.
Vivia trancada em casa de seu Pai e ninguém a via.
Quase nem se sabia de sua existência.
Quando os Orixás seus irmãos se reuniam no Palácio do grande pai
para as grandes audiências
em que Olodumare comunicava suas decisões,
Onilé fazia um buraco no chão e se escondia,
pois sabia que as reuniões sempre terminavam em festa,
Onilé não se sentia bem no meio dos outros.

Um dia o grande deus mandou seus arautos avisarem:
haveria uma grande reunião no palácio
e os orixás deveriam comparecer ricamente vestidos,
pois ele iria distribuir entre os filhos as riquezas do mundo
e depois haveria muita comida, música e dança.
Por todos os lugares os mensageiros gritaram essa ordem
e todos se prepararam com esmero para o grande acontecimento.

Quando chegou por fim o grande dia,
cada orixá dirigiu-se ao palácio na maior ostentação,
cada um mais belamente vestido que o outro,
pois este era o desejo de Olodumare.
Iemanjá chegou vestida com a espuma do mar,
e os braços ornados de pulseiras de algas marinhas
a cabeça cingida por um diadema de corais e pérolas,
o pescoço emoldurado por uma cascata de madrepérola.
Oxóssi escolheu uma túnica de ramos macios,
enfeitada de peles e plumas dos mais exóticos animais.
Ossaim vestiu-se com um manto de folhas perfumadas.
Ogum preferiu uma couraça de aço brilhante,
enfeitada com tenras folhas de palmeira.
Oxum escolheu cobrir-se de ouro,
trazendo nos cabelos as águas verdes dos rios.
As roupas de Oxumaré mostravam todas as cores,
trazendo nas mãos os pungos frescos da chuva.
Iansã escolheu para se vestir-se um sibilante vento
e adornou os cabelos com raios que colheu da tempestade.
Xangô não fez por menos e cobriu-se com o trovão.
Oxalá trazia o corpo envolto em fibras alvíssimas de algodão
e a testa ostentando uma nobre pena vermelha de papagaio.
E assim por diante.
Não houve quem não usasse toda a criatividade
para apresentar-se ao grande pai com a roupa mais bonita.
Nunca se vira antes tanta ostentação, tanta beleza, tanto luxo.
Cada orixá que chegava ao palácio de Olodumare
provocava um clamor de admiração,
que se ouvia por todas as terras existentes.
Os orixás encantaram o mundo com suas vestes.
Menos Onilé.
Onilé não se preocupou em vestir-se bem.
Onilé não se interessou por nada.
Onilé não se mostrou para ninguém.
Onilé recolheu-se a uma funda cova que cavou no chão.

Quando todos os orixás haviam chegado,
Olodumare mandou que fossem acomodados confortavelmente,
sentados em esteiras dispostas ao redor do trono.
Ele disse então à assembleia que todos que eram bem-vindos.
Que todos os filhos haviam cumprido seu desejo
e que estavam todos tão bonitos que ele não saberia
escolher qual seria o mais vistoso e belo.
Tinha todas as riquezas do mundo para dar a eles,
mas nem sabia como começar a distribuição.
Olorum fletiu por um bom tempo e disse
que seus próprios filhos tinham feito suas escolhas.
Ao escolherem o que achavam o melhor da natureza,
para com aquela riqueza se apresentar perante o pai,
eles mesmos já tinham feito a divisão do mundo.
Então Iemanjá ficava com o mar,
Oxum com o ouro e os rios.
A Oxóssi deu as matas e todos os seus bichos,
reservando as folhas para Ossaim.
Deu a Iansã o raio e a Xangô o trovão.
Fez Oxalá dono de tudo que é branco e puro,
de tudo o que é o princípio, deu-lhe a criação do homem.
Destinou a Oxumarê o arco-íris e a chuva.
A Ogum deu o ferro e tudo o que se faz com ele,
inclusive a guerra.
E assim por diante.
Confirmou Exu no cargo de mensageiro dos deuses,
pois nenhum outro era capaz de se movimentar como ele.
Mas como Exu se cobrira todo com búzios para a reunião,
e como búzios era dinheiro, Olodumare também dava a ele
o patronato dos mercados e o governo das trocas.

Olodumare deu assim a cada orixá um pedaço do mundo,
uma parte da natureza, um governo particular.
Dividiu de acordo com o goto de cada um.
E disse que a partir de então cada um seria o dono
e o governador daquela parte da natureza.
Assim, sempre que um humano tivesse alguma necessidade
relacionada com uma daquelas partes da natureza,
deveria pagar uma oferenda ao orixá que a possuísse.
Pagaria em oferendas de comida, bebida ou outra coisa
que fosse predileção do orixá.
Os orixás, que tudo tinham ouvido em silêncio,
começaram a comemorar, cantando e dançando de júbilo.
Era grande o alarido na corte, a festa começava.
Mas Olorum-Olodumare levantou-se e pediu silêncio,
pois a divisão do mundo ainda não estava concluída.
Disse que faltava ainda a mais importante das atribuições.
Que era preciso dar a um dos filhos o governo da Terra,
o mundo no qual os humanos viviam
e onde produziam as comidas, bebidas e tudo o mais
que deveriam ofertar aos orixás.
Disse que dava a Terra a quem se vestia da própria Terra.
Quem será?, perguntaram-se todos.
"Onilé", respondeu  Oludumare.
"Onilé?", todos se espantaram.
Como, se ela nem se quer viera à grande reunião?
Nenhum dos presentes a vira até então.
Nenhum sequer notara sua ausência.
"Pois Onilé está entre nós", disse Olodumare,
e mandou que todos olhassem no fundo da cova,
onde se abrigava, vestida de terra, a discreta e recatada filha.
Ali estava Onilé, em sua roupa de terra.
Onilé, a que também foi chamada Ilé, o país, o planeta.
Olodumare disse que cada um que habitava a Terra
pagasse tributo a Onilé,
pois ela era a mãe de todos, o abrigo, a casa.
A humanidade não sobreviveria sem Onilé.
Afinal, onde ficava cada uma das riquezas
que Olodumare partilhara os filhos orixás?
"Tudo está na Terra, disse Oloduare.
"O mar, os rios, o ferro e o ouro,
 os animais e as plantas, tudo" continuou.
"Até mesmo o ar e o vento, a chuva e o arco-íris,
tudo existe porque a Terra existe,
assim como as coisas criadas para controlar os homens
e os outros seres vivos que habitam o planeta,
como a vida, a saúde, a doença e mesmo a morte."
Pois então, que cada um pagasse o tributo a Onilé,
foi a sentença final de Olodumare.

Onilé, Orixá da Terra, receberia mais presentes que os outros.
Deveria ter oferendas dos vivos e dos mortes,
pois na Terra também repousam os corpos dos que já não vivem.
Onilé, também chamada Aiê, a Terra, deveria ser propiciada sempre,
para que o mundo dos humanos nunca fosse destruído.
Todos os presentes aplaudiram as palavras de Olodumare.
Todos os orixás aclamaram Onilé.
Todos os humanos propiciaram a mãe Terra.

E então Olodumare retirou-se do mundo para sempre
e deixou o governo de tudo por conta dos seus filhos orixás.


(*) ONILÉ = LITERALMENTE, DONA DE ILÊ, DONA DA TERRA. ORIXÁ FEMININO POUCO CONHECIDO NO BRASIL, HOMENAGEADO, CONTUDO, EM CANDOMBLÉS TRADICIONAIS DA BAHIA E CANDOMBLÉS AFRICANIZADOS, ESPECIALMENTE NO INÍCIO DO XIRÊ. TAMBÉM CHAMADA AIÊ.

Fonte: Mitologia dos Orixás - Reginaldo Prandi - Cia. das Letras

terça-feira, 23 de abril de 2013

Ogum - A força transformadora

Ogum por Martinez/1987(*)

Para tudo que se vai fazer na vida é necessário que uma força dê partida. Qualquer movimento que se faça é gerado por energia, e para essa energia adquirir movimento é necessário que haja uma transformação da mesma.
O elemento da natureza que comanda a transformação é o fogo.
E, ao estudarmos a origem da palavra OGUM, verificamos que ela é uma correspondência fonética da palavra AGAUM. Decompondo esta, encontra-se o seu significado direto. Assim temos: AG que significa fogo, AUM que significa salvação, glória, inovação.
Juntando as duas traduções teremos o seguinte:" O fogo da salvação ou o fogo da glória, ou ainda, o fogo da inovação. A salvação significa a volta a Deus; a glória representa o vencedor de uma luta; a inovação significa a modificação ou transformação".
Juntando, então, todas as palavras traduzidas, teremos: 
Glória - luta vencedora;
fogo - transformação;
salvação - sagrado (a volta a Deus); 
inovação - transformação e 
Ogum - luta sagrada pela transformação.
Isso significa que Ogum é a força (luta) inicial para que haja a transformação. É o ponto de partida, aquele que vai na frente.
É sobre esta linha de força espiritual que se agrupam todos os espíritos que controlam os choques (lutas) consequentes da execução da lei cármica, que cobram e reajustam dentro da Grande Lei e dos consequentes efeitos causados pela aplicação da lei cármica.
Portanto, Ogum se manifesta como um soldado.


SUAS FALANGES:
1) Ogum Beira Mar (inclusive 7 Ondas)
2) Ogum Rompe-Mato
3) Ogum Megê
4) Ogum Naruê
5) Ogum Matinata
6) Ogum Yara
7) Ogum Delê (ou Ogum de Lei)

Ogum Beira-Mar

Ogum Beira Mar
Também conhecido como Ogum do Mar ou Ogum das Ondas. Na areia molhada e considerado Beira-Mar e nas ondas é conhecido como 7 Ondas. Vibra nas cores vermelha e branca, onde branco é Oxalá e vermelho é o fogo ou a luta.
Ele atua rondando a calunga grande (o mar) ou o reino de Iemanjá na areia molhada ou nas 7 ondas.

Ogum e Oxóssi por Martinez/1983(**)

Ogum Rompe-Mato
Sua falange trabalha cruzada com Oxóssi, rondando as matas ou também as pedreiras onde é conhecida como Ogum das Pedreiras, e neste caso trabalha cruzada com Xangô. Vibra nas cores vermelha e branca, ou muitas vezes verde e vermelho combinado com branco.
Normalmente, o verde e o vermelho são uados para Ogum das Pedreiras, pois a combinação destas cores gera o marrom.

Ogum Megê

Ogum Megê
Sua falange é responsável pela ronda da calunga pequena ou cemitério, trabalhando na calçada que o cerca. Lida diretamente com a linha das almas. Vibra nas cores branca e vermelha.

Ogum Naruê por Rev.King Skull

Ogum Naruê
Esta falange de Ogum trabalha desmanchando a magia negra, operando dentro da linha das almas, exercendo especial domínio sobre as almas quimbandeiras.
Vibra nas cores branca e vermelha.

Ogum Matinata
Junto com suas falanges,defende os campos onde se assentam as obrigações para Oxalá, principalmente nas colinas floridas. É uma falange muito difícil de incorporar e, por isso, pouco médiuns conseguem tê-lo como guia. Vibra nas cores branca e vermelha, com maior predominância do branco. 

Ogum Yara
É a falange de Ogum que ronda os rios,lagos e cachoeiras. É o grande colaborando dos trabalhos de Oxum. Vibra nas cores branca e vermelha e algumas vezes com verde e vermelho simbolizando a mata, já que normalmente estes campos sagrados se encontram dento dela.

Ogum Delê
Esta falange carrega a vibração pra de Ogum. Efetua sua ronda sobre o mundo. É a própria lei que rege os reajustes cármicos. Vibra nas cores branca e vermelha.


Fonte:
Textos de autoria de Adilvar Brasão de Freitas para a Revista Planeta - Especial Cultos Afro-brasileiros - Edição de 1996
Imagens (*) e (**) constantes na mesma revista

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Lendas dos Orixás: Olocum

OLOCUM ACOLHE TODOS OS RIOS E TORNA-SE A RAINHA DA ÁGUAS
Olokun
Olocum, a senhora do mar,
e Olossá, a senhora do lago,
andavam ambas muito preocupadas.
As águas já não eram suficientes para suprir
as necessidades do povo, que já padecia
da sede provocada pela longa seca.
Olocum e Olossá foram aos pés de Orunmilá,
que as aconselhou a fazer oferendas
para que a abundância das águas retornasse.
Era um sacrifício grande para ambas,
mas Olocum cumpriu o recomendado.
Olossá, porém, ofereceu seus sacrifícios incompletos.
E veio a chuva e choveu tanto
que as águas já não cabiam no curso dos rios.
Oxum, o rio, foi consultar Ifá
para saber que destino dar ao curso de suas águas.
Oxum foi orientada por Ifá para procurar um lugar onde fosse bem recebida.
Assim, Oxum reuniu as águas do rio
e seguiu caminho.
Encontrou a lagoa, encontrou ossá(*),
e nela se precipitou,
mas as águas da lagoa transbordaram.
Deixou a lagoa e chegou ao mar, o ocum(**),
e ali derramou todas as suas águas
e o mar recebeu o rio Oxum sem transbordar.
Então todos os rios fizeram a mesma rota
e encaminharam suas águas para o mar, o ocum.
E Olossá teve que se conformar com o segundo posto.
Olocum fez corretamente o sacrifício.
Olocum é a rainha de todas as águas.
(*) ocum = oceano, mar
(**) ossá = lago, logoa, mar


OLOCUM ISOLA-SE NO FUNDO DO OCEANO
Olocum vivia na água e vivia na terra, 
a natureza de Olocum era anfíbia.
Olocum tinha vergonha de sua natureza, 
pois ela não era nem uma coisa nem outra.
Ela se sentia muito atraída por Orixá Ocô,
mas não queria ter relações com ele,
pois temia ser objeto de ridículo. 
Olocum, então, pediu conselho a Olofim, 
que lhe assegurou que Orixá Ocô 
era um homem sério e reservado.
Olocum criou coragem e foi viver com o orixá lavrador,
mas este descobriu a particularidade 
que existia na natureza de Olocum e contou a todos.
Todos ficaram sabendo da ambígua natureza de Olocum.
A vergonha fez com que Olocum se escondesse no fundo do oceano, 
onde tudo é desconhecido e aonde ninguém nunca pode chegar.
Olocum nunca mais deixou o mar 
e agora só esse é o seu domínio, 
outros dizem que Olocum se transformou numa sereia, 
ou uma serpente marinha que habita os oceanos.
Mas isso ninguém jamais pôde provar.

Fonte: Mitologia dos Orixás - Reginaldo Prandi - Cia. das Letras

Quem é Olokun?
Saiba mais em:
http://mitographos.blogspot.com.br/2010/05/olokun.html

domingo, 21 de abril de 2013

Lendas dos Orixás: Iemanjá


IEMANJÁ TEM SEU PODER SOBRE O MAR CONFIRMADO POR OBATALÁ
http://nomadeescoladepoesia.blogspot.com.br/2013/02/iemanja-rainha-do-mar.html

Um dia, no princípio dos tempos,
orixás e homens revoltaram-se contra Iemanjá,
pois Iemanjá, sempre que queria,
saía das profundezas e invadia a terra com suas águas.
Orixás e homens, unidos, procuraram Olorum,
que enviou Obatalá à Terra para averiguar a acusação.
Eleguá, que tudo escutou, avisou Iemanjá
e aconselhou-a a consultar Ifá.
Feito isso, Iemanjá ofereceu um carneiro em sacrifício
contra o poder de seus inimigos.
Enquanto Obatalá, em Ifé, escutava protestos,
protestos dos homens e dos orixás,
Iemanjá invadiu de novo a terra
e as águas inundaram tudo
e chegaram até onde estava o grande rei.
Cavalgando as ondas do mar vinha Iemanjá.
Vitoriosa e soberba, sobre as onda enfurecidas,
ela mostrava sua oferenda.
Iemanjá mostrava a cabeça do carneiro.
Lá estava Obatalá e lá estava Iemanjá
e Iemanjá tinha alguma coisa preciosa para Obatalá.
Iemanjá fizera o sacrifício
e Obatalá aceitou a oferenda.
Obatalá confirmou o poder de Iemanjá.
Nunca se passa muito tempo
sem que o mar invada a terra,
Iemanjá cavalgando a temida maré.


IEMANJÁ CURA OXALÁ E GANHA O PODER SOBRE AS CABEÇAS
http://elekomulheresguerreiras.blogspot.com.br/2013/02/yemanja-e-danca-sagrada-das-aguas.html

Quando Olodumare fez o mundo,
deu a cada orixá um reino, um posto, um trabalho.
A Exu deu o poder da comunicação e a posse das encruzilhadas.
A Ogum deu o poder da forja, o comando da guerra 
e o domínio dos caminhos.
A Oxóssi ele entregou o patronato da caça e da fartura.
A Obaluaê deu o controle das epidemias.
Oloduramare deu a Oxumarê o arco-íris
e o poder de comandar a chuva, 
que permite as boas colheitas e afasta a fome.
Xangô recebeu o poder do trovão e o império da lei.
Oyá-Iansã ficou com o raio e o reino dos mortos,
enquanto Euá foi governar os cemitérios.
Olodumare deu a Oxum o zelo pela feminilidade, 
riqueza material e fertilidade das mulheres.
Deu a Oxum o amor.
Obá ganhou o patronato da família
e Nanã, a sabedoria dos mais velhos,
que ao mesmo tempo é o principio de tudo,
a lama primordial com que Obatalá modela os homens.
A Oxalá deu Olodumare o privilégio de criar o homem,
depois que Odudua fez o mundo.
E a criação se completou com a obra de Oxaguiã,
que inventou a arte de fazer utensílios,
a cultura material.
Para Iemanjá, Olodumare destinou os cuidados de Oxalá.
Para a casa de Oxalá, foi Iemanjá cuidar de tudo:
de casa, dos filhos, do marido, da comida, enfim.
Iemanjá nada mais fazia que trabalhar e reclamar.
Se todos tinham algum poder no mundo,
um posto pelo qual recebiam sacrifício e homenagens,
por que ela deveria ficar ali em casa feito escrava?
Iemanjá não se conformou.
Ela falou, falou e falou nos ouvidos de Oxalá.
Falou tanto que Oxalá enlouqueceu.
Seu ori(*), sua cabeça, não aguentou o falatório de Iemanjá.
Iemanjá deu-se então conta do mau que provocara
e tratou de Oxalá até restabelecê-lo.
Cuidou de seu ori enlouquecido,
oferecendo-lhe agua fresca, 
obis deliciosos (**), apetitosos pombos brancos, frutas dulcíssimas.
E Oxalá ficou curado.
Então, com o consentimento de Olodumare,
Oxalá encarregou Iemanjá de cuidar do ori de todos os mortais.
Iemanjá ganhara enfim a missão tão desejada.
Agora ela era a senhora das cabeças.
(*) ori = cabeça, destino

(**) obi = noz-de-cola, fruto africano aclimatado no Brasil (cola acuminata, Streculiacea (grafia que consta no livro)), indispensável nos ritos do candomblé; 
substituído em Cuba pelo coco.


IEMANJÁ SALVA O SOL DE EXTINGUIR-SE 

Orum, o Sol, andava exausto.
Desde a criação do mundo ele não tinha dormido nunca.
Brilhava sobre a Terra dia e noite.
Orum já estava a ponto de exaurir-se, de apagar-se.
Com seu brilho eterno, Orum maltratava a Terra.
Ele queimava a Terra dia após dia.
Já quase tudo estava calcinado
e os humanos já morriam todos. 
Os orixás estavam preocupados
e reuniram-se para encontrar uma saída.
Foi Iemanjá quem trouxe a solução.
Ela guardara sob as saias alguns raios de Sol.
Ela projetou sobre a Terra os raios que guardara
e mandou que o Sol fosse descansar,
para depois brilhar de novo.
Os fracos raios de luz formaram um outro astro. 
O Sol descansaria para recuperar suas forças
e enquanto isso reinaria Oxu, a Lua.
Sua luz fria refrescaria a Terra
e os seres humanos não pereceriam no calor.
Assim, graças a Iemanjá, o Sol pode dormir.
À noite, as estrelas velam por seu sono,
até que a madrugada traga um outro dia.

Fonte: Mitologia dos Orixás - Reginaldo Prandi - Cia. das Letras

sábado, 20 de abril de 2013

Lenda dos Orixás: Ibejis

OS IBEJIS NASCEM DE OIÁ E SÃO CRIADOS POR OXUM
Oxum e os Ibejis

Oiá andava pelo mundo disfarçada de novilha.
Um dia Oxóssi a viu sem pele e se apaixonou.
Casou-se com Oiá e escondeu a pele da novilha,
para ela não fugir.
Oiá teve dezesseis filhos com Oxóssi.
Oxum, que era a primeira esposa de Oxóssi
e que não tinha filhos,
foi quem criou todos os filhos de Oiá.
O primeiro a nascer chamou-se Togum.
Depois nasceram os gêmeos, os Ibejis,
e depois deles, Idoú.
Nasceu depois a menina Alabá,
seguida do menino Odobé.
E depois os demais filhos de Oiá e Oxóssi.
Os meninos pareciam-se com o pai,
as meninas, com a mãe.
Oiá tinha os filhos que Oxum criava
e assim viviam na casa de Oxóssi.
Um dia as duas mães se desentenderam.
Oxum mostrou a Oiá onde estava sua pele.
Oiá recuperou a pele de novilha,
reassumiu sua forma natural e fugiu.


 OS IBEJIS SÃO TRANSFORMADOS NUMA ESTATUETA
Ibejis por Gil Abelha

São filhos de Iemanjá
os dois meninos gêmeos, os Ibejis.
Os Ibejis passavam o dia a brincar.
Eram crianças e brincavam com Logm Edé
e brincavam com Euá.
Um dia, brincavam numa cachoeira
e um deles se afogou.
O Ibeji que ficou começou a definhar,
tão grandes eram sua tristeza e solidão,
melancólico e sem interesse pela vida.
Foi então a Orunmilá e suplicou
que Orunmilá trouxesse o irmão de volta.
Que Orunmilá os reunisse de novo,
para que brincassem juntos como antes.
Orunmilá não podia ou não queria fazer tal coisa,
mas transformou a ambos em imagens de madeira
e ordenou que ficassem juntos para sempre.
Nunca mais cresceriam,
não se separariam.
São dois gêmeos-meninos
brincando eternamente, são crianças.


Fonte: Mitologia dos Orixás 0 Reginaldo Prandi- Cia. das Letras
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