quarta-feira, 16 de abril de 2014

Os Acontecimentos da Semana Santa / Quarta-feira Santa - Dia de Mercúrio




Em realidade, a Semana Silenciosa só o é a partir da sua metade. No domingo de Ramos, estremece o ambiente psíquico de toda a cidade; na segunda- feira são derrubadas as mesas dos vendedores e cambistas no templo na terça-feira, golpes de espada são trocados na luta espiritual entre o Cristo e seus adversários. Somente a última parte da semana é invadida pelo mistério do silêncio, embora seja um silêncio cósmico-dramático aquele que, na noite de quinta-feira, envolve a mesa da ceia e, mais ainda, aquele que cerca a morte do Cristo na cruz, e o que reina sobre o sepulcro. Lembremos apenas o terremoto que parte das profundezas da terra na sexta-feira santa. Entretanto, a parte do Cristo nos acontecimentos passa ao silêncio na segunda metade da semana enquanto na primeira metade ainda estava totalmente envolvida no ruidoso primeiro plano. O dia que chamamos de “Mittwoch” por representar o meio (Mitte) da semana, mas que, em outras línguas, é designado como dia de Mercúrio, conforme o efeito planetário que o rege, dia mercurial ou do movimento vivo, este dia estabelece de maneira significativa a transição entre os dias ainda não silenciosos da Semana do Silêncio e os dias em que se entretece o crescente mistério do silêncio do Cristo.

Ao cair da tarde deste dia, destaca-se uma cena que já teve suas similares nos dias anteriores, mas agora, no dia do meio e do equilíbrio, alcança um significado especial. O Cristo voltou do movimento da cidade para o local tranqüilo além do Monte das Oliveiras, voltou para Bethânia. Encontra-se entre aqueles aos quais está particularmente ligado. Os amigos lhe preparam uma refeição. Nas outras noites também houve refeições, mas hoje é como se já incidisse na sala um prenúncio da luminosidade que incidirá sobre a ceia da noite seguinte. Há em meio aos comensais como que um presságio da Santa Ceia.

A aldeia de Bethânia, por tranqüila que seja, foi, ainda há pouco, o cenário daquele acontecimento que significou o sinal para a luta: a ressurreição do
Lázaro. Lázaro é um dos comensais. É ele que, na noite seguinte, conforme descreve o Evangelho, estará encostado ao coração de Jesus. É ele que, no círculo da Santa Ceia, está interna e externamente mais próximo do Cristo. Entre os comensais, há também duas mulheres designadas pelo evangelho de João como irmãs de Lázaro, Marta e Maria Madalena. Ingressaram através de algumas circunstâncias do destino neste círculo que é mais uma família espiritual do que uma família por laços de sangue. Na vida de cada uma dessas três pessoas, há um acontecimento que provocou uma transformação fundamental. Para Lázaro, foi a ressurreição do sepulcro na rocha, a grande libertação do espírito de João para seu vôo-de-águia pelas alturas.

Para Maria Madalena foi um acontecimento mais remoto, designado pelo Evangelho como um exorcismo. Foi curada de uma trágica e fatídica alienação e experimentou a libertação e purificação de sua alma. No caso de Marta também ocorre um evento semelhante, conforme a tradição cristã: a cura da mulher hemofílica. O destino havia introduzido em sua vida uma doença que impedia seu organismo de manter suas forças. Através do encontro com aquele que pôde curá-la, uma força de coesão, força plasmadora instalou-se em seu corpo, como se instalara na alma de Maria Madalena, a paz interior. Foram através das curas do espírito, da alma e do corpo que os três irmãos de Bethania se tornaram amigos íntimos do Cristo.

O primeiro acontecimento sempre designado como característico da quarta-feira santa foi o seguinte: ao estarem todos reunidos à mesa, Maria ungiu os pés do Cristo com um precioso óleo e os enxugou com seus cabelos. O evangelho de João relata que o perfume do sacrifício impregnou toda a casa.
Maria Madalena já fizera algo semelhante um ano e meio atrás, quando fora salva pelo Cristo. Também naquela ocasião, segundo o evangelho de Lucas, ela, espontaneamente, para manifestar sua gratidão, ungira os pés do Cristo e os enxugara com seus cabelos. Na introdução do relato sobre a ressurreição do Lázaro, o evangelho de João (11, 2) recapitula esta cena. O que é revelado pelo ato de Maria Madalena que o evangelho de Lucas, ao relatara primeira unção, designa como grande pecadora e que talvez tenha realmente sido, conforme dizem as velhas tradições, uma prostituta perseguida por demônios no mundano balneário de Tibéria, perto de sua terra natal, Magdala! A unção é típico ato sacramental. A alma de Maria Madalena se ergue ao nível de praticá-lo. E, portanto, o Cristo, quando os outros declaram insensata esta atividade e se impacientam, pôde pronunciar palavras como se aceitasse o ato dessa mulher como um sacramento de morte, como uma extrema-unção. Na primeira unção ele dissera: “Calem-se. Ela amou muito e muito lhe será perdoado”.

E adivinhamos como Maria Madalena conseguiu transformar as forças do amor natural, as forças terrenas do amor, que podem também desviar-se para a aberração, como conseguiu interiorizá-las e transformá-las em devoção, em intenso sentimento religioso e em capacidade sacramental de sacrifício.

Uma nota em falso interrompe o silêncio solene. Surge um personagem diametralmente contrastante com Maria Madalena. É um dos discípulos que perde o controle e a contenção ao ver o ato de Maria Madalena. É o Judas. Alega, na verdade, que seu protesto se baseia em considerações práticas e sociais. Diz que o dinheiro desperdiçado em óleo poderia ser dado aos pobres, aliviando muita miséria. Mas o evangelho de João já nos permite perceber nitidamente que os verdadeiros motivos de seu comportamento não são idênticos aos que ele propõe. Em realidade, é algo muito diferente que se passa em sua alma. O evangelho não o poupa, designa-o como ladrão. Vemos: justamente o aborrecimento sobre o ato de Maria Madalena dará ao Judas o último impulso para a sua traição. Excitadíssimo, há muito tempo espera pelo surgimento público de Jesus e pelo milagre político que ele acredita será a conseqüência desta aparição. Tudo o que leva ao silêncio da interiorização lhe parece, em sua impaciência febril, como sendo desperdício de tempo. Em Bethânia ele perde a paciência. Descontrola-se e sai para se juntar àqueles que perseguem o Cristo. O segundo conteúdo clássico da quarta-feira santa é a traição de Judas.

O motivo planetário do dia lança uma luz sobre as duas figuras tão contrastantes à mesa do jantar em Bethânia. Ambos, Judas e Maria Madalena, são figuras tipicamente mercuriais e têm mobilidade e temperamento. Possuem a qualidade de não serem enfadonhos. Ao seu redor sempre algo acontece. A roda das suas vidas não pára. Mas, Maria Madalena domina a intranqüilidade. Transforma-a em devoção, em paz, em capacidade de amor. A figura de Maria Madalena permite reconhecermos que a verdadeira e valiosa devoção só se instala quando é conquistada por uma alma vivaz, para a qual a paz não é mera inércia, mas vivacidade libertada, interiorizada. Maria Madalena foi muito manejada, sofreu muita coisa e atravessou muitas trevas. Mas, de toda intranqüilidade que houve em sua vida, flui agora sua intensa religiosidade. Será esta intensidade que a destacará em seguida entre todos os outros! Será ela a primeira a ter a visão do Cristo ressuscitado!

Judas é o outro homem mercurial. É, aliás, o tipo do homem irrequieto, que precisa sempre exercer uma atividade exterior. Alega querer agir em prol dos pobres. A atividade social, por boa e louvável que seja, é freqüentemente apenas um auto-entorpecimento. O impulso nem sempre reside em um autêntico ímpeto social, mas muitas vezes, na própria intranqüilidade interior. Muitas pessoas ficariam profundamente infelizes se fossem obrigadas a passar algum tempo inativas. Revelar-se-ia então, que a atividade social não é uma real produção interior, mas que elas cedem apenas a uma fraqueza inconfessada. Em Judas vemos este tipo de alma mercurial desembocar na mais tenebrosa fatalidade. Nele, a intranqüilidade nasce de um medo profundamente oculto. De modo semelhante ao que acontece nos adversários, nele rumoreja a intranqüilidade do medo essencial. Este é que acarreta sua traição do Cristo. A partir de tal estado de alma, o homem não pode ser devoto, não pode, em particular, amar. Um homem intranqüilo não é capaz de amar. O amor só é possível quando a alma já adquiriu a força da paz. E vemos assim nas duas figuras, de Maria Madalena e de Judas, dois caminhos que se separam como em uma encruzilhada. Um deles leva à proximidade do Cristo, o outro ao abismo da loucura, à tragédia do suicídio.

Marta, a outra irmã de Lázaro, é uma espécie de transição entre Judas e Maria Madalena. O evangelho de Lucas não relata em vão, em trecho anterior da vida do Cristo, a história de Maria e a de Marta. Marta é eternamente ativa. Não pode abster-se de empreender, a todo momento, algo de útil a serviço de alguém. Não podemos deixar de reconhecer a autenticidade de sua dedicação. Mas, tampouco, podemos deixar de ver a intranqüilidade física da qual foi curada, mas permaneceu existindo em sua alma. Maria que ouve em silêncio reverente é designada, em comparação com Marta, como aquela que escolheu a melhor parte.

As figuras da cena da quarta-feira santa nos mostram a encruzilhada que encontramos antes de podermos esperar sermos admitidos na esfera da quinta-feira santa. Diante do mistério sacramental, separam-se os caminhos. Judas é o homem sem culto. Ao se deparar com um ambiente de verdadeira devoção cultural, ele não fica só irrequieto, mas perde a contenção. Maria Madalena é a alma sacramental.

Na noite seguinte, quando o sacramento se estenderá sobre o circulo de discípulos como uma cúpula celeste, revelar-se-á quem é mais Maria e quem é mais Judas.

Mercúrio, deus da cura no mundo greco-romano, mas também deus dos comerciantes e dos ladrões, aproxima-se do sol do Cristo. A cena em casa de Lázaro e de suas irmãs em Bethânia mostra como o deus da cura Mercúrio, pode ser curado pelo sol do Cristo.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Os Acontecimentos da Semana Santa / Terça-feira Santa - Dia de Marte

por Emil Bock

Em silêncio, sem provocar as mesmas excitações, realiza-se nas manhãs seguintes o mesmo que no domingo de Ramos. Jesus entra com seus discípulos na Cidade Santa. Já se acalmaram as grandes ondas de entusiasmo aprovador. Jesus, embora já envolvido nos relâmpagos e tensões da decisão que se aproxima, quer obedecer a lei até o fim. Cumpre o rito sagrado de preparação para a festa pascal. Traz suas oferendas. Mas já sentimos: é ele mesmo que será sacrificado e elevado ao céu. As inimizades e o ódio das pessoas o atingem. No domingo ainda podia parecer que o sol espiritual que nele ascendia sobre o horizonte do drama estivesse em coincidência com o sol natural que acende o entusiasmo primaveril nas almas dos homens. Mas, na segunda-feira, o engano se esclarece. Na terça-feira santa, o drama-mistério ultrapassa a simples despedida do velho mundo. Jesus marcha cada vez mais majestoso para a cidade. Quanto mais silenciosa a massa, tanto maior o ardor da volição (vontade) na fisionomia do Cristo. Nasceu o dia de Marte: inflama-se a luta. A massa calou- se: seus líderes têm medo e o medo é a raiz do ódio, que passa à agressão. Cada tropa do exército inimigo envia na vanguarda seus atacantes. Um grupo após o outro aborda o Majestoso. Sucedem-se as perguntas traiçoeiras. Disfarçam sob a forma de questões aquilo que deveria ser um golpe na face ou um golpe de espada. Chegam primeiro os sacerdotes, os sábios das escrituras e os presbíteros, ou seja, todos os membros do Sinédrio judeu. Mandam perguntar a Jesus com que autoridade age. Exigem que se identifique chegam depois outros os, fariseus, com os seguidores de Herodes, e pousam a questão embaraçosa: “É justo pagar tributo a César?”. Seguem-se os saduceus: querem saber o que pensa Jesus sobre a ressurreição dos mortos. Finalmente, chega um indivíduo que, acreditando poder comprometê-lo perante todo o povo, pergunta qual é, em sua opinião, a mais nobre das leis. Esses ataques, representando a atração das inimizades, constituem a melhor prova de quão intensamente era sentida a majestade de Cristo. Os cães só latem e mordem quando têm medo. Assim também essas questões, em realidade golpes de ódio, partem do medo. As forças das trevas tremem porque está nascendo o sol.

Jesus responde a cada uma das quatro questões. Mas não se contenta em aparar os golpes investidos contra ele: aceita o desafio e luta com as armas do espírito. Desenrola imagens potentes. Do mesmo modo que nos três anos passados falava aos discípulos em parábolas maravilhosamente poéticas, responde agora aos seus adversários em parábolas de combate. Conta a parábola dos viticultores aos quais fora confiado o parreiral e que se recusam a entregar a safra, matam os mensageiros do dono das parreiras e, finalmente, até seu próprio filho. Os adversários sentem a potência combativa da parábola. Sentem que se refere a eles próprios. De fato, Jesus prediz aos seus inimigos, pela parábola, que eles o matarão. Ele não o faz para ganhar fama de profeta. Sua parábola é uma luta final pelas almas de seus adversários. Quiçá elas ainda desaparecerão. Quiçá ainda serão aterrorizados pela visão de si mesmos.

O Cristo lança aos seus adversários mais uma parábola: a parábola do casamento real. É inestimável a grandeza micaélica desta parábola combativa. Trata-se daqueles que seriam indicados como convidados. Todos falham. O convite é feito, então, a estranhos, a gente que, normalmente, nem seria levada em consideração. Os estudiosos oficiais de Deus revelaram-se como mentirosos e hipócritas, e a Divindade apela então para pessoas cuja aparência não revela estarem à procura de Deus. Isto se dirige diretamente contra os adversários, contra os eclesiásticos privilegiados pela tradição. Ao ser descrita, enfim, a imagem e o destino daquele que não estava usando roupa adequada para a festa, toda a humanidade pode ver-se em rigoroso espelho. Mas, mesmo dirigida, em última análise, contra todos, a parábola das bodas reais é, sem dúvida o mais potente golpe desferido no dia de Marte da Semana Santa.

O Cristo prossegue. Ele mesmo dirige agora uma questão àqueles que lhe pousam perguntas capciosas: “De quem é filho o Messias? “Respondem: É filho de Davi”. O Cristo tem que lhes mostrar, citando o 110º salmo que eles conhecem, no qual Davi designa o Messias como seu senhor. E pergunta: “Como pode ele chamar o Cristo de seu senhor quando se trata de seu filho?” O Cristo desmascara os que o cercam como estranhos ao espírito e sua devoção como desprovida de espiritualidade. Os homens só olham para o terreno. Para compreender o divino, a primeira condição seria ver que o Messias é filho de Deus e não dos homens. O Cristo mostra aos homens o que deveriam reconhecer nele; mas não o reconhecem.

E vem, então o quarto contragolpe pelas armas espirituais do Cristo: os nove “ai-de-vós” sobre os fariseus, desembocando na lamentação sobre Jerusalém, mundo destinado ao declínio. No início de sua atuação, Jesus, no círculo familiar de seus discípulos, pronunciou as nove bem-aventuranças do Sermão da Montanha, revelando as nove partes do Ideal Luminoso do homem-espírito. Agora, no final de sua via terrena, ele põe as nove sombras ao lado das nove luzes. Os “ai-de-vós” são o desmascaramento combativo da humanidade inimiga de Deus, assim como as bem-aventuranças foram a revelação das nove faces do relacionamento entre o homem e Deus. A lamentação sobre Jerusalém inverte a palavra do Sermão da Montanha sobre a “Cidade na Montanha” que, pela primeira vez, fez reluzir a imagem da Jerusalém celeste.

Eis um conteúdo bem pouco silencioso para a “Semana do Silêncio”. Os golpes de espada cintilam de um lado e de outro. Luta-se e briga-se. O poder marcial do Verbo se precipita da boca daquele que mais tarde não se lamentará ao carregar a cruz para o alto do Gólgota.

Ao declinar o dia, quando Jesus com seus discípulos, como todas as tardes, deixa a cidade e, do outro lado do vale de Kidron, galga o Morro de Getsemane através dos jardins onde tantas vezes ensinara na intimidade do círculo de seus discípulos, desta vez não dirige seus passos para Betfagé e Bethânia. No alto do Monte das Oliveiras, em meio a maravilhoso bosque da paz, convida os discípulos a se acomodarem. Ainda estremecendo da luta que travou durante o dia, começa a falar aos discípulos pela última vez ao ar livre. E as palavras destes ensinamentos não são certamente menos poderosas do que as palavras de combate espiritual contra os adversários. Os corajosos atos da alma realizados durante o dia conclamam o eco dos deuses. O Cristo é capaz, mais do que nunca, de oferecer revelações aos discípulos. O que lhes oferece nesta noite – costumamos chamá-lo de “Apocalipse do Monte das Oliveiras” – é uma intervenção nos grandes futuros dos destinos da humanidade. Rasga-se a cortina do futuro. Abrem-se grandes perspectivas apocalípticas.

É sempre assim na vida. Quando o dia registrou verdadeiros atos, a tarde e a noite convocam o eco celeste destes atos. Os resultados do dia não residem unicamente naquilo que foi diretamente criado; quando a atividade diurna bateu às portas do mundo espiritual, podem abrir-se, à noite, as portas de um outro mundo. E (deste mundo espiritual) flui o correspondente a genuína força interior empregada durante o dia.

O presente torna-se transparente. Os discípulos passaram o dia com o Cristo contemplando o templo. Revelou-se que tudo isso está condenado a desaparecer. A destruição de Jerusalém e do templo é uma necessidade espiritual. Se não fosse executada, 40 anos depois, pelos romanos, teria que ser consumada de alguma outra maneira. Na visão que surgiu do declínio do templo transparece a visão de uma grande catástrofe. Todo um mundo submerge. O Cristo pinta, aos olhos dos discípulos, as cores de um ocaso do mundo. E se, durante o dia, se anunciava uma separação dos espíritos em inimigos de Cristo e em um pequeno grupo disposto a formar o apostolado, este fato também se torna transparente: todo o transcurso da História Universal nada mais será do que uma seleção dos espíritos. Alguns tendem pala o divino, os outros tendem contra ele. E por mais imponentes que sejam as realizações destes últimos na terra, tudo não passará de produtos de um medo oculto. E aquilo que, silenciosamente, germinará no grupo – talvez pequeno – daqueles que se unem ao divino portará em si o futuro do mundo.

Jesus continua o apocalipse vespertino que apresenta aos discípulos. Como lançara aos adversários parábolas combativas, assim dá aos discípulos as mais íntimas parábolas que lhes poderia dar: as duas parábolas de sua volta. No apocalipse já dissera que, sob o bramir do temporal universal, o Filho do Homem aparecerá sobre as nuvens do céu. Apontou para um futuro no qual, em meio ao barulho do fim do mundo, a nova revelação do Cristo terá que abrir caminho. Agora, ele mostra aos discípulos, nas parábolas das dez virgens e dos talentos (dinheiro) confiados, o que devem fazer os homens a fim de se preparar para a volta do Cristo. Um dia chegará o noivo da alma. Um dia voltará àquele que, ao partir, confiou aos seus servos o dinheiro; voltará para exigir as contas. Embaixo, no templo, os “ai-de-vós” ressoaram como antibem-aventuranças. Agora o dia desemboca em um elevado Sermão da Montanha. Com os últimos e mais íntimos ensinamentos, o Cristo fornece aos discípulos uma provisão de coragem para milhares de anos. As parábolas do retorno e, especialmente, a visão final da seleção dos espíritos em ovelhas e bodes, na qual finaliza todo o Apocalipse do Monte das Oliveiras, são uma provisão que manterá os discípulos através de muitas encarnações. A luz do apocalipse, que ilumina a noite que desce, é o dom solar conquistado de Marte.

As palavras pronunciadas pelo Cristo na terça-feira santa são, em conjunto, uma maravilhosa linha de orientação para toda luta entre as trevas e a luz, para toda luta pelo apostolado de Cristo contra os inimigos de Cristo. A palavra de Goethe, afirmando que toda a história mundial nada mais é do que uma luta constante da fé contra a descrença, já representa uma procura pela chave fornecida em detalhe pelo transcurso da terça-feira santa. Toda oposição contra o Cristo e toda inimizade contra o espírito tem suas raízes na incredulidade, em uma falta de força, em um medo profundamente oculto na alma humana. O apostolado de Cristo se afirma e mantém através da fé germinando força-coragem interior. A campanha cuja estratégia pode ser deduzida do conteúdo da terça-feira santa não é, entretanto, em primeiro lugar, uma campanha de guerra entre dois mundos humanos. É uma luta que deve ser travada interiormente. Em toda alma humana misturam-se o medo e a coragem, o oponente e o discípulo do Cristo.

As parábolas combativas dirigidas aos oponentes expõem sempre o medo como raiz da inimizade contra o espírito. O egoísmo dos viticultores que não queriam entregar o produto da safra é, como todo egoísmo, um produto da fraqueza e do medo interior. Nasce no homem o primeiro germe de coragem quando ele aprende a tudo abandonar e tudo sacrificar porque se compenetra do sentimento de que tudo o que possui e pode possuir pertence à Divindade.

Os “ai-de-vós” são de modo especial, o desmascaramento da descrença. Iniciam-se pelas palavras que, de imediato, arrancam a máscara não só à renegação do espírito, mas também a qualquer tipo de tutela sobre as almas humanas: “Ai-de-vós”, escribas e fariseus! “Desviastes as chaves das portas do céu, onde não podeis entrar e, portanto, não quereis que entrem os que se esforçam para entrar!”

A maior coragem é a exigida pelo trabalho na própria alma. “A luta contra si mesmo é a mais difícil das lutas. Vencer-se a si mesmo e a mais bela vitoria”. Na luta travada no interior de nossa própria alma, conquistamos os mais maduros dons das forças marcianas. Já na parábola combativa das bodas reais reluz na imagem do traje matrimonial, o ideal da autotransformação meditativa. A alma que adquire luminosidade através da purificação e da oração é o traje matrimonial.

Mais ainda, as parábolas das dez virgens e do dinheiro confiado são uma provisão para o trabalho interior. O óleo nas lâmpadas é uma imagem das forças que devem ser adquiridas pela alma; o dinheiro confiado simboliza os órgãos espirituais desenvolvidos no ser humano.

A resposta dada pelo Cristo à questão dos impostos revela como se impõe a genuína coragem adquirida através do esforço interior. Quem se esforça de maneira salutar pelo espírito, não se distancia na terra, mas sabe manter o equilíbrio entre deveres terrenos e ideais espirituais e, justamente assim, adquire a soberania solar sobre tudo o que é terreno. É capaz de dizer, mesmo se, como era o caso naqueles dias, o trono está ocupado por uma fera: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

Na grande visão final da seleção dos espíritos revela-se, finalmente, o segredo da coragem interior. “O que fizestes a qualquer um de vossos mínimos irmãos, a mim o fizestes”. O fato de um homem estar trilhando corretamente o caminho de sua alma e de seu espírito revela-se em sua capacidade de amar. Amor é o verdadeiro antônimo do medo. Todo verdadeiro esforço ou tendência em direção ao espírito começa pela coragem interior e desemboca no amor. O verdadeiro amor pelos homens é idêntico ao amor pelo próprio Cristo. Os poderes marciais do dia são, embora caia a noite, totalmente irradiados pelo do Cristo quando  todas as palavras de luta espiritual culminam a palavra amor.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Os Acontecimentos da Semana Santa / Segunda-feira Santa - Dia da Lua



No caminho que Jesus e seus discípulos fizeram todas as manhãs e todas as tardes da Semana Santa, da cidade para Bethânia à tarde ou vice-versa de manhã, existe um local tranqüilo que ainda hoje está envolto no denso ambiente de um mistério. Partindo de Jerusalém, atravessamos o cume do Monte das Oliveiras e, lentamente, descemos pela outra encosta, onde vemos brilhar, em meio ao deserto da Judéia, o espelho mágico do Mar Morto; a meio caminho entre o Monte das Oliveiras e Bethânia encontramos um local cercado por altos muros. Ciprestes negros despontam por trás dos muros e parecem graves e solenes sinais apontando para o céu. Havia aí, no tempo de Jesus, uma pequena vila: “Betfagé” (a casa dos figos). Não devemos imaginar uma aldeia como outras aldeias. O grupo de pessoas que para lá transferira sua vida comunitária era unido por um esforço psico-espiritual especial.

As modestas cabanas eram cercadas por um pomar de figueiras. Mas essas figueiras não eram apenas plantas frutíferas; eram, para aqueles habitantes, árvores sagradas, sinais visíveis de seus esforços espirituais. Tratava-se de pessoas que, em seu círculo, procuravam conservar o mistério (segredo) espiritual da antiga Humanidade, mistério que surge, uma vez, também no Novo Testamento, na história de Nathanael. Os moradores de Betfagé praticavam o “sentar-se sob a figueira”, o estado vidente atingido através de exercícios, em parte físicos, em parte meditativos.

Betfagé, a casa dos figos, era um sítio onde se praticava a antiga clarividência. Foi de lá que Jesus, na manhã do domingo de Ramos, mandou Pedro e João trazerem o jumento e o burrinho. Lá existiam árvores sagradas e, do mesmo modo, animais sagrados. Os jumentos ali mantidos não eram animais de carga. Também eles expressavam um mistério naquele círculo de pessoas. Na corrente do Velho Testamento estava bem viva a memória daquele mago que fora mandado certa vez da Babilônia a fim de conjurar o impedimento de entrada do povo de Israel à Terra Prometida.

Bileam era descrito montado numa jumenta. Sabia-sé, no entanto, que montar em jumenta não era apenas um modo de locomoção. Expressava um bem definido estado de alma, a saber, aquele enlevo sonâmbulo sob o qual o mago babilônico começava a falar, não em estado de consciência humana, mas como que espiritualmente possesso: entretanto, sem que ele soubesse como, a imprecação mágica que ele queria lançar contra Israel transformou-se em bênção. Os animais sagrados de Betfagé revelam que a visão ali praticada era de natureza inconsciente e ligada à corporeidade física: aliás, até nos contos de fada mais recentes, o jumento é o símbolo do corpo físico humano.

O filhote de jumento, no qual o Cristo montou para entrar na Cidade Santa no domingo de Ramos, pertence à esfera de imagens de Betfagé. Mas, quando ele teve a audácia de entrar na cidade montado no branco animal sagrado, não foi ele quem mergulhou no estado bileâmico de “montar uma jumenta” quem caiu em alienação extática, ao vê-lo, foi à massa popular. Foi como se um linguajar bileamítico se apoderasse do povo quando este chamava “hosana” àquele que chegava no dorso do jumento.

À noite, Jesus, como também faria nas noites seguintes, fora com seus discípulos para Bethânia para repousar. Durante a noite, o eco do êxtase popular, gritando “hosana”, ergueu-se em sua alma. Ele e seus discípulos não são mais os mesmos como no dia anterior, ao voltarem do dia seguinte a Jerusalém. Novamente passam por Betfagé. Na fisionomia de Cristo lê-se algo de extremamente grave, inexorável. Acontece, então, o fato misterioso: ele se aproxima das figueiras de Betfagé. Os discípulos se admiram, pensando que ele quer comer figos quando não é época destas Frutas. E ouvem-no pronunciar a estranha e severa sentença: “Ninguém mais comerá destes figos, para todo o sempre”. Talvez naquele momento apenas supuseram que era subtendido algo de mais importante do que uma simples afirmação sobre a árvore  e sua fertilidade. Mas não tiveram sua visão desvendada.

Os discípulos passam, então, um dia em Jerusalém com o Cristo, este dia que desenvolve dramaticamente toda a grave severidade. Ao atravessar a soleira do templo, irrompe o caos. Espalha-se o pânico, derrubam as mesas, o dinheiro rola no chão. Dá-se a inversão do êxtase jubiloso da véspera. O terror se apodera de todos os que estão na zona do templo.

Após pernoitarem novamente em Bethânia e, passando de manhãzinha outra vez por Betfigé, os discípulos subitamente têm a visão da árvore seca e pedem que Jesus lhes explique o mistério. Não aconteceu nenhum milagre grosseiro no qual Jesus teria, com suas palavras iradas, privado de vida uma criatura da terra. Como poderia ele ter destruído uma arvore pertencente àqueles que lhe haviam oferecido a jumenta e o filhote! O que aconteceu foi um ato espiritual que significa um importante entroncamento no drama do mistério da Semana Santa, nesse dia aparentemente de pouca importância.
No domingo de Ramos, embora a ressurreição do Lázaro desse o sinal para a luta decisiva, todo o ser do Cristo estava em atitude de dar, de oferecer.

Foi uma impressão positiva de seu ser que tocou as almas do povo. Devemos lembrar-nos também no simples significado humano do momento. Jesus foi ao Templo para orar e sacrificar como os outros fiéis, preparando a festa da Páscoa. Mas a previsão de importantes decisões apoderou-se de todo o seu ser. Impossível continuar inofensivo. A aura volitiva de seu sei, lançando faíscas de luz, contribuiu para induzir o povo na visão extática de sua grandeza solar. O Cristo perscruta a superficialidade e inconstância deste entusiasmo apenas natural, mas ainda não tem um pretexto para realizar sua defesa e seu contra-ataque. O povo tem razão. Não clamariam “hosana” se não tivessem percebido algo de seu verdadeiro ser. Ele não pode dizer que estão errados, como se confirmará no dia seguinte ao repetir-se a cena na zona do templo. Desta vez é um grupo de crianças que grita “hosana” porque um raio de seu verdadeiro ser penetra em suas almas. Os adversários perguntaram, astutos: “Que dizer quanto ao fato de crianças te aclamarem com “hosana”? Ele retruca: “Jamais lestes nas Escrituras, o trecho: da boca dos inocentes preparei-lhe louvores”?

Mas agora ele passou a noite em Bethânia. Tornou certa distância da vibração do domingo de Ramos. Aproxima-se das figueiras de Betfagé. Quer mostrar aos discípulos o quanto vale o “hosana” da véspera. Fora apenas o último fruto da árvore da antiga clarividência. Um resíduo da antiga força visionária ligada à natureza e ao corpo. Através das palavras que ele fala à figueira, ele renega todo o mundo das velhas visões extáticas. Sentimos algo de uma grande decisão para a humanidade. Jesus desvaloriza o “hosana” do povo e, ele mesmo, induz a transição para o “crucificai-o”! Ele possui a incrível coragem de aceitar e, pessoalmente aduzir a cegueira espiritual pela qual os homens deverão, fanaticamente, exigir sua morte. Para ele é mais importante que a humanidade trilhe os seus caminhos da consciência que, embora trágicos, a levarão à liberdade; embora sabendo que esta necessária cegueira espiritual levará os homens a crucificá-lo.

Quando os discípulos, na terça-feira de manhã, revêem as figueiras de Betfagé, os acontecimentos da segunda-feira só afastaram o sonho dos seus olhos. Perderam uma ilusão. Experimentam uma salutar sobriedade. Onde ainda há pouco viam um alto valor, vêem agora a imagem da árvore seca. A antiga clarividência ligada ao corpo era um dom da Lua, uma intervenção de forças lunares na natureza humana. Era relativo à noite, porque estava á disposição dos homens em estados inconscientes. Agora os discípulos percebem que as forças resumidas na imagem da figueira estão velhas, ultrapassadas.

O que Jesus lhes ensina agora é um prelúdio daquilo que lhes dará na misteriosa noite da mesma terça-feira no alto do Monte das Oliveiras. Revela-lhes que a humanidade alcançará algum dia uma nova vidência. A “fé” é o germe da nova visão. Jesus diz aos discípulos: “Se tiverdes um grãozinho de fé, sereis capazes de tudo. Bastará que digais a esta montanha- afasta-se, e ela se afastará. A visão se liberta; a montanha do mundo sensorial, que vos oculta a visão desaparecerá. Através dos rochedos da existência terrena, percebereis a verdadeira essência de origem divina das coisas”. A visão antiga era de natureza lunar, a nova será solar. A força solar da fé fará abrir-se no coração humano o olho da nova visão, como diz o trecho das bem-aventuranças: “Bem-aventurados os puros de coração, pois eles verão Deus”. Entre a visão inútil e a nova visão do coração que se torna solar, situa-se o período das trevas, da cegueira diante do espírito. E a partir desta cegueira espiritual, os homens crucificarão o Cristo.

Na segunda-feira santa o Cristo se defende de uma tentação. Se ele atasse sua atividade aos antigos estados de alienação clarividente, ele poderia ser reconhecido pelos homens. Não o aclamariam apenas com “hosana”, mas o escolheriam como rei. Revela-se agora, definitivamente, que o Cristo não quer atar-se ás velhas forças. Trata-se para ele única e exclusivamente de fazer com que a humanidade encontre o caminho da consciência e da liberdade. No começo dos três anos, ele enfrentara a tentação de transformar morte em vida. Agora, no final de sua caminhada, na defesa contra a tentação até mesmo executa isto, de transformar vida em morte. Não é uma maldição, por carência de amor que ele executa nas figueiras daqueles que lhe oferecem a jumenta e o filhote. Não! O efeito parte da sua essência. Ele é o sol. E, quando nasce o sol, a lua empalidece. Assim empalidecem as forças lunares da antiga vidência. Revela-se que elas não têm futuro quando nasceu o sol da nova luz da alma.

O Cristo chega  à praça do templo, o antiqüíssimo e sagrado morro da Lua na mais velha cidade da humanidade. Já se inicia ai o grande movimento da Páscoa. Já aparecem muitas centenas de peregrinos. Ao redor do templo praticam-se compras, vendas, pechinchas e negócios. E, no próprio recinto do templo, reina uma atividade febril, pois o conteúdo das cerimônias pascais será o oferecimento de animais e o sacrifício da ovelha pascal. Isto permite fazer negócios porque tudo o que será sacrificado tem que ser primeiro comprado. E, por isso, formou-se uma quermesse no lugar onde deveria reinar o mais sagrado ambiente cultural. O velho Hannas, o mais notório “pão duro” da História, sabe fazer negócios. Já extraiu enorme fortuna do mercado do templo. Como presidente do conselho de altos sacerdotes saduceus, Hannas é também a força motriz dos compromissos políticos nos quais se baseiam os negócios ligados ao templo. Para comprar, os peregrinos devem cambiar o dinheiro que trouxeram de todos os países, em moeda oficial, nacional. Ora, esta moeda é de César. E, portanto, o local de vendas é, ao mesmo tempo, uma bolsa de valores romana. Admitiam-se os funcionários e alfandegários romanos, embora se soubesse que eram fiéis ao culto dos césares. Permitia-se-lhes o acesso, temendo que, caso contrário, os romanos pudessem roubar o Santíssimo do templo. E, assim estabelecera-se uma extrema materialização e profanação daquilo que fora uma vida puramente cultural. Na  imagem da figueira seca, os discípulos viram a decadência da antiga consciência religiosa. Na imagem do mercado que se expandia na zona do templo revelava-se a decadência do culto religioso.

É neste local que penetra o Cristo. Vem para cumprir os ritos da festa. Mas o fogo, as faíscas de sua seriedade produzem efeito. Ele nem precisa falar muito: os homens são logo tomados de pânico. A pessoa de Cristo lhes revela, de modo terrificante, a decadência em que caíram. No começo dos três anos, na primeira festa pascal, sucedera algo semelhante. O efeito de grande terror partira então do caráter divino do Cristo, não obstante a grande reserva que Jesus ainda se impunha. Mas, agora, a divindade, nele, se transpôs inteiramente em caráter humano. Transformou-se em flamejante intensividade volitiva. Ele tem direito a arrancar a máscara do mundo degenerado do templo e a desencadear a tempestade. Sua atitude chega a ser em si mesma uma defesa contra a tentação, a saber, a tentação de permanecer atado ao antigo estado das coisas. Torna-se agora bem claro: o que poderá dar à humanidade em futuro espiritual só pode ser algo de radicalmente novo. No campo da consciência humana a Vidência lunar tem que morrer, mesmo que isto acarrete uma penosa caminhada pelo deserto. O futuro só poderá florescer pela fé, pela vidência solar do coração. Também na esfera do culto, o antigo tem que ser despedido sem escrúpulos. Nada pode mais ser ligado ao antigo, por mais venerável que este tenha sido. Algo novo tem que entrar na vida. É o sol do Cristo que apaga no morro lunar Morija a luz da lua. O sol rechaça os fantasmas noturnos. A zona do templo, grandiosamente situado com vista para o mundo é silenciosamente substituída no morro Sion, na modesta sala da Santa Ceia, pelo germe de um novo fluxo cultural, solar. A religião da Lua é substituída quando na quinta-feira santa, o Cristo oferece pão e vinho aos discípulos no morro solar de Sion.

domingo, 13 de abril de 2014

Os acontecimentos da Semana Santa / Domingo de Ramos

Os sete dias que precedem a Páscoa podem ser comparados às doze noites santas do período natalino. Os sete dias da Paixão dotam aqueles que participam, em atividade interior, do Mistério da Paixão, de novas forças para todo o seu destino.”

Emil Bock


Os Acontecimentos da Semana Santa – Introdução

A semana que precede a Páscoa é um período significativo que se destaca não apenas no ano Cristão, mas também no transcurso anual da própria Natureza. No ano cristão ela encerra toda a plenitude do drama da Paixão,  a grande parte final do Evangelho. Em diversas regiões ela é designada como “Semana do Silêncio” ou também como “Semana Magna”, revelando-se assim que só pode contar  com a realização da festa da Ressurreição quem é capaz de vivenciar  toda a grandeza da Semana Santa.

O significado da semana que precede a Páscoa no transcurso natural do ano reside na lua cheia da primavera. Rompe-se definitivamente o encanto do inverno a nova vida da Terra progride aos saltos, com um poderoso ímpeto seivas e forças começam a geminar e brotar no reino vegetal. Na luta entre o dia e a noite, o dia alcança a supremacia vitoriosa que se consolidará em triunfo da luz no primeiro domingo após a lua cheia da primavera.

O conteúdo evangélico da Semana Santa não coincide de antemão com a natureza primaveril. Pelo contrário, opõe-se-lhe em contraste agudo.

Somente no final, ao nascer o sol da Páscoa, ele desemboca em júbilo estivo que coincide com o rejubilar do milagre da primavera. O drama sério da Semana Santa é, no entanto a preparação dessa consonância. A primavera da natureza irrompe por si mesma. A primavera interior da festa da Ressurreição deve ser conquistada através da peregrinação ao longo das estações da Semana da Paixão.

Os sete dias que precedem a Páscoa podem ser comparados às doze noites santas do período natalino. O período “entre dois anos” é, para os que devotamente se entregam à trama do pleno inverno, a preparação adequada para os doze meses do ano novo. Os sete dias da Paixão dotam aqueles que participam, em atividade interior, do Mistério da Paixão, de novas forças para todo o seu destino.

Os acontecimentos que se passaram a 2000 anos na Semana Santa entre o domingo de Ramos e o domingo da Ressurreição foram revelações arquetípicas do destino que, a cada ano, conferem aos sete dias de cada semana um novo e mais elevado sentido e um cunho luminoso que plasma as almas.

Os dias da semana sempre contiveram as diversas cores e os sons das sete esferas planetárias, conforme revelam seus nomes nas línguas européias: Sol(domingo = Sonntag); Lua ( segunda-feira = Montag); Marte (terça-feira =  Mardi em francês); Mercúrio (quarta-feira = Mercredi); Júpiter (quinta-feira =  Jeudi); Vênus (sexta-feira = Vendred); Saturno (Sábado = Saturday). Naquela semana pré-pascal, entretanto, cada dia da semana recebeu, além da diferenciação cósmica, o cunho do pensamento planetário cristão.

Os dias da Semana Santa ainda não têm seu conteúdo plenamente realizado na sensibilidade cristã: o único a se impor foi a sexta-feira santa, com a concepção da cruz no alto do Gólgota: para uma parte da cristandade, esta imagem se estendeu a todas as sextas-leiras, transformadas em dias de jejum. Além da sexta-feira, somente o domingo de Ramos relacionou-se a uma imagem poderosa nas regiões onde é hábito o enfeite com ramos de palmeira: a imagem da Entrada em Jerusalém. Em realidade, porém, cada um dos sete dias revela um novo mistério cósmico sob uma forma humana e histórica.

Quando o Cristo entrou em Jerusalém no domingo de Ramos, o antigo Sol ainda reinava no céu, mas recebeu sua despedida a fim de que pudesse nascer, no domingo seguinte, o novo sol da Páscoa. Quando, na segunda-feira, o Cristo condenou a figueira e limpou o templo na Cidade Santa, o sol de Cristo se opôs ao princípio lunar, às forças lunares do Velho Mundo, necessitadas de uma renovação.

Quando o Cristo, na terça-feira, teve que discutir com os adversários que chegavam em grupos para induzi-lo a trair-se; quando ele teve que lutar com a arma do Verbo espiritual; e quando, finalmente, no ressoar vespertino dessas lutas, ele se retirou com seus discípulos para o Monte das Oliveiras e lhes abriu a visão profético-apocalíptica do futuro, o espírito de Marte também recebeu, por sua vez, o cunho do Cristo. Na quarta-feira, durante a Unção de Bethânia e a traição de Judas, Mercúrio encontrou-se com o sol do Cristo. E, na quinta-feira quando o Cristo lavou os pés dos discípulos e lhes ofereceu a Santa Ceia, uma auguriosa luz de Júpiter iluminou a aflição e a tristeza das almas.

Na sexta-feira santa ocorreu a mais milagrosa elevação de tudo o que pudera significar para o homem a idéia da deusa do amor; Vênus ou Afrodite: deu-se um ato de amor, maior do que qualquer ato de amor possível. O Sacrifício por amor em Gólgota foi a transformação do princípio de Vênus pelo princípio solar do Cristo. Quando o Cristo repousava no sepulcro, o sol do Cristo encontrou-se com o espírito de Saturno  no universo, até que, finalmente, no domingo, a própria oitava do sol nasceu no firmamento, o sol do Cristo, que vencera todas essas etapas de luta.

O drama do mistério da Semana Santa é uma unidade grandiosamente completa em si. Acompanha-se de um mistério de composição que se nos desvenda à medida que desenvolvemos o sentido em relação ao valor das etapas na vida de Jesus. O que aconteceu nos sete dias pré-pascais é uma condensação de toda a vida do Cristo. As mesmas leis originais e as mesmas etapas reveladas na sagrada biografia dos três anos ressurgem dramaticamente resumidas diante de nossa visão. A partir da semana da Paixão podemos reconhecer nos três anos da vida do Cristo toda uma grande Paixão. A Entrada em Jerusalém é uma oitava do Batismo no Jordão. Completa-se a entrada do Cristo em nossa existência terrena. Recebe seu cunho definitivo o mistério da Encarnação que se iniciara três anos antes.

Os acontecimentos da segunda-feira, a maldição da figueira e a purificação do templo correspondem à tentação do Cristo descrita pelos três primeiros evangelhos. O Cristo se defronta aí mais uma vez com as velhas forças lunares do mundo. Não lhe servem, ele as afasta e vence a tentação de usá-las. Não lhe importam os sucessos externos, importa-lhe completar sua missão. A limpeza do templo relatada no Evangelho de João pertence, como vimos, aos ecos da vivência da Tentação e, portanto, se situa no quadro das grandes correspondências da outra limpeza do templo relatada nos primeiros três evangelhos. E quando, na terça-feira, as réplicas na discussão com os adversários reluzem como golpes de espada e quando, à noite, os relâmpagos apocalíptico atravessam a conversa com os discípulos, repete-se, em um nível mais elevado, o que ocorreu quando Jesus teve que se separar de sua terra natal e de seus parentes de sangue em Nazaré, a fim de se dedicar ao parentesco espiritual, ao círculo de seus discípulos. O Apocalipse do Monte das Oliveiras corresponde ao Sermão na Montanha, no qual foi firmada a dedicação decidida à família espiritual. Aos acontecimentos da quarta-feira, unção em Bethânia e traição do Judas, corresponde, na grande vida do Cristo, a tragédia de João Batista. É a mesma crise, a mesma conjunção. O Lava-Pés e a Santa Ceia são a oitava, a última repetição decisiva, do mistério que já reluzira na alimentação dos cinco mil e na perambulação à beira do mar.

O que acontece na sexta-feira nada mais é do que a acentuação final e a realização total da Transfiguração da Montanha. O Sepultamento no Sábado de Aleluia leva mais adiante, no âmbito das decisões cósmicas, aquilo que estava encerrado na decidida partida para a Judéia, na partida para o campo de batalha da decisão. Na manhã de domingo da Páscoa confundem-se os dois círculos, o grande dos três anos e o pequeno dos sete dias. A Semana Santa como um todo corresponde, na vida do Cristo, à irrupção do sol que, dentro da Semana Santa, só ocorre na manhã do domingo da Ressurreição.


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Domingo de Ramos – Dia do antigo Sol

No primeiro dia da Semana Santa, o Cristo entra na Cidade Santa. Apresenta-se-nos uma imagem irrelevante. Vemo-lo atravessar as portas da cidade montado em um burro, seguido por seus fiéis. Mas, como se fora o próprio Deus da primavera, sua entrada provoca repentinamente um êxtase na alma da multidão. É como se algo do antigo êxtase solar das festas pagãs, da primavera se apoderasse dos homens: acende-se uma faísca. Ao cortar ramos de palmeira, o povo renova um hábito muito antigo, volta-se, às festividades em honra ao sol no início da primavera, comuns entre os povos pré-cristãos.

Pois a palmeira sempre foi considerada a árvore e o símbolo do sol, do sol natural que no céu primaveril desenvolve uma força tão nova. O povo enfeita o caminho com símbolos solares. Será ele talvez realmente o alto amigo e senhor do sol, anunciado aos homens como o grande rei da luz? Deverá ser quebrado o encanto do significado espiritual original da cidade de Jerusalém, que abrigava, na montanha de Sion, um dos mais antigos templos do Sol, antes que o templo de Salomão, na montanha da Lua, superasse tudo em importância? Ressurgirá a época de Melquisedeque, o grande iniciado do rito solar? Parece mesmo que o Cristo encontrará agora o acesso à Humanidade. O alto espírito solar já habita há três anos um corpo humano, já atravessou destinos humanos, terrenos. Manteve-se afastado, em silêncio. Se aparecia uma vez ou outra, encontrava incompreensão e inimizade por parte dos homens. Será diferente, agora? Será que o destino levara agora diretamente a uma grande salvação, em meio a jubiloso êxtase?

Não, estamos no inicio da mais séria semana da História da Humanidade. Os mesmos homens que espalham ramos de palmeira e irrompem extasiados em gritos de hosana, gritarão fanaticamente,alguns dias mais tarde, cheios de ódio: “Crucificai-o!”. Ao símbolo da vida, ramo de palmeira, virá se juntar o símbolo da morte, a cruz do Gólgota.

O próprio Cristo contribuiu para essa reviravolta.  Atravessa em silêncio, sério, o povo que vibra em êxtase. Percebe nesta recepção a sua superficialidade. Visa camadas mais profundas. Quer algo muito diferente.

Em termos humanos poder-se-ia perguntar, por que Jesus não ficou na Galiléia, sua terra, naquela época do ano em que justamente ao redor do Lago Genezaré eclodem os milagres de cor primaveris? Tivesse ficado na Galiléia não teria morrido. Mas podemos igualmente perguntar por que o Cristo, sendo Deus, não ficou nos mundos espirituais, nas esferas celestes? Não ficou nas bem-aventuradas alturas divinas. Deixou o céu e se fez homem. Realizou todo o sentido do seu ser através deste sacrifício, desta renúncia. Ao entrar em Jerusalém, sabendo exatamente que estava atirando a luva àqueles que tinham poder sobre ele, completava-se sua entrada no mundo terreno. No início da grave semana repete-se, ainda uma vez, em outro nível, aquilo que três anos antes significou o começo de sua vida terrena. Do mesmo modo que abandonara o céu, abandona agora a natureza paradisíaca da Galiléia.

Quando ele desceu do céu a terra, os homens nada perceberam. João Batista, que prestou o auxílio sacerdotal àquela encarnação na existência terrena, apenas supunha o que estava acontecendo quando Jesus de Nazaré tornou-se portador e continente do Cristo. Mas, através do Homem, o fato foi percebido. Ressoou a palavra: “Este é meu filho amado”. Agora, no domingo de Ramos, nessa hora misteriosa, festivamente excitada, os homens o perceberam. À palavra que naquela ocasião ressoara apenas das alturas espirituais corresponde agora o “hosana” dos homens extasiados. Subitamente, os homens percebem, como em uma renovação instantânea da antiga clarividência, que não é apenas homem aquele que vem montado no burrinho. É como se a alma do povo se precipitasse para perceber o brilho irradiante, a aura solar que emana de Jesus de Nazaré. O ser divino do Cristo teve que se reter durante três anos, pois, se não fizesse, teria violentado os homens com sua força divina. Agora, no entanto, o fruto desta reserva é que o divino que se sacrificara, que se rebaixara entrando no humano, transforma-se em poderosa decisão volitiva. Primeiro, o divino ofuscava, escondia o humano na figura do Cristo. Agora, o humano arde em fogo divino. E é deste fogo de volição que parte a faísca que acende o entusiasmo da massa popular. A embriaguez de uma premonição primaveril se apodera do povo, mas este só sabe interpretar o fato politicamente.

O Cristo sabe melhor. Sabe que está trazendo algo à Cidade Santa, quintessência de toda a evolução pré-cristã da Humanidade: está introduzindo algo de totalmente diferente de tudo, até das maiores maravilhas que a Natureza terrena pode produzir. E uma semente de fogo que virá transformar o mundo pela base. A superfície bem pode estar agora concordando, excitada. Mas isto nada significa. Poucos dias depois veremos que a superfície pode imprecar tão bem quanto abençoar. Trata-se apenas de ondulações superficiais. A Natureza da terra em que penetrou o Cristo pelo batismo no Jordão só pode lhe dar, enfim, a morte. A cidade que grita “hosana” só pode finalmente crucificá-lo.

Salta a faísca, acende-se o fogo, mas o Cristo atravessa as ondas de entusiasmo sem alterar-se. Quer penetrar na camada mais profunda. Quantas maravilhas não nos doa o sol natural quando nasce de manhã e pare o dia! Mas o sol exterior, o sol antigo, relacionado apenas ao homem – ser natural, se põe todas as tardes. Após o solstício de verão, ele se afasta da terra, vem o outono e o inverno. O sol natural vem, mas vai, como a vida natural que sempre nasce e sempre morre. Às alegrias da infância segue-se sempre a dor da morte. Cada qual terá que morrer algum dia, por mais cheio de vida que tenha sido quando criança e quando jovem. O domingo de Ramos é o dia do velho sol. O domingo da Páscoa será o dia do novo sol. Este não é o sol natural, é o sol espiritual. Não se põe. É permanente. Pode até mesmo ser mais facilmente encontrado nas trevas de um destino grave, na miséria, na doença e na morte, do que no arrebatamento da alegria, da infantilidade despreocupada. O Cristo entra na velha Jerusalém. É domingo de Ramos. Mas ele traz para o mundo em ocaso, moribundo, a nova Jerusalém. Não acompanha a trilha primaveril do sol exterior. Por quê? Para acender, no mais íntimo da terra e da humanidade, o novo sol, o sol perene, fiel e onipotente. É este o caminho que vai do domingo de Ramos ao domingo da Páscoa, do velho ao novo sol.

Na história da entrada em Jerusalém reconhecemos o caráter falacioso de todos os estados extáticos. Todo entusiasmo apenas extático surge quando o homem obedece apenas à Natureza. É bom, sem dúvida, que sejamos capazes de vivenciar alegria e entusiasmo diante das imagens da primavera, no convívio com crianças, no encontro dos milagres da juventude e do amor. Certamente não gostaríamos de dispensar esse entusiasmo natural. Mas devemos saber e reconhecer que é perigoso confundi-lo com a própria vida. O entusiasmo apenas natural se origina, em realidade, do homem apenas corpóreo. Só em momentos ocasionais se ergue à altura do espírito. O verdadeiro entusiasmo, que persiste no “hosana” e não se transforma em “crucificai-o”, não se forma de baixo para cima, mas de cima para baixo, nasce quando o espiritual se enraíza no ser humano, quando a faísca divina se realiza e se encarna na terra.

sábado, 12 de abril de 2014

E se ele estivesse por aqui?


Estava pensando em algo para postar aqui hoje e resolvi sair em busca de algum assunto. Por uma destas coisas da vida, li no Facebook do amigo António Rosa uma nota dizendo que hoje dia 12 de Abril é o aniversário de Montserrat Caballé.
Curiosamente e, quase coincidentemente, além do mesmo dia e mês, ela nasceu em 1933. 
Curiosamente porque? 
Bom, é aqui que começa a história.
Hoje, tão logo acordamos aqui em casa, nos lembramos que o dia de hoje é uma data especial.
Se ele estivesse entre nós neste plano, meu pai completaria hoje 91 anos de idade, dez a mais que Monserrat. Eis ai a "coincidência", dele ter nascido em um ano terminado com o número 3.
Bobagem, não? 
Pode ser, mas isso é coisa de quem é observador.
Aliás, ele adorava saber a data do aniversário e o signo das pessoas... e logo já fazia suas conjecturas. Este era o velho Zé!
Longe de ser uma lembrança triste, nos pegamos aos risos ao nos lembrarmos de suas manias, jeitos de expressar e algumas frases que ele soltava quase que como sentença. Coisas de ariano.
Logo de manhã ele fazia questão de nos lembrar que o dia, 12 de Abril, era um data especial e ele dizia com grande orgulho: "sou abrilano".
Certa vez, quando eu ouvia a canção "You Gotta Love Someone", de Elton John, ele não pensou duas vezes e me disse: esse moço aí deve estar com calor... e logo improvisou uma tradução, cantando no mesmo ritmo: que calor, seu moço, ôôô que calor seu moço.
De lá pra cá, ouvir You Gotta Love Someone, tornou-se mais um motivo de boas lembranças e risos. Letrista esse Zé!
Ariano, compreensivo, que muitas vezes foi "massacrado" por três figuras femininas, duas cancerianas (zelosas e protetoras ao quadrado) e uma sagitariana (arrogante);para dar um equilíbrio. Tadinho do Zé! 
Costumo dizer, que meu pai era um homem de alma feminina. 
E realmente o foi, nunca houve da parte dele aquele ar superior machista, como é comum se ver por aí. Buscava conselhos com minha mãe, e sempre nos dava razão, quando as coisas esquentavam em alguma discussão. Afinal eram 3 contra 1. Conciliador o Zé!
E se ele estivesse por aqui? 
Meu Deus, o que ele não falaria do seu time do coração, o Galo, depois da vitória na Copa Libertadores de 2013 e da derrota no Mundial de Clubes do mesmo ano... não é bom nem imaginar.
Do Brasil, ele diria que está podre.
Dos políticos ao futebol = podres.
O Zé também era bravo, ficava zangado com esses políticos malandros que vivem pedindo o nosso voto e fazendo promessas que nunca são cumpridas.
Bom, por agora chega. 
Só para esclarecer, a foto ai em cima é do ano de 1977 (30 anos antes de sua passagem para o plano espiritual), do tempo das câmeras Kodak Instamatic, que levavam vários dias e põe vários nisso, para sabermos se as fotos ficaram boas, tremidas ou, o que era pior, se não queimaram, mas que éramos, com certeza, menos estressados e mais felizes.
Então ai estão na foto as personagens deste post, ele o Zé, eu, Soraia a arrogante e metida, que roubou o livro das mãos dele só para ficar bem na foto e, por fim, minha doce irmã.
Tchau, Zé! Nos vemos a qualquer hora:)

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Encontro Mineiro de Falcoaria

Conheça a arte da falcoaria, que é muito praticada em Minas Gerais
Além de um esporte curioso, a prática de treinar e comandar aves de rapina tem um uso importante: prevenção de acidentes em aeroportos


Com 17 anos de atuação, a Associação Brasileira de Falcoeiros e Preservação de Aves de Rapina (ABFPAR), começou no Rio de Janeiro, a partir da iniciativa de três ambientalistas: o mineiro Guilherme Fernandes Queiroz e os cariocas Jorge Sales Lisboa e Leo Tatsuji Fukui. No início, eles não tinham nenhuma ave para realização de treinamentos ou mesmo praticar comandos. Apenas em 2002, Leo Tatsuji Fukui montou o primeiro criadouro de aves de rapina no país. Hoje, existem três empresas que fornecem animais para os falcoeiros (praticantes da falcoaria): uma fica no Rio de Janeiro e as outras em Minas, em Uberlândia e em Patrocínio – que também fica no Triângulo Mineiro e é a maior do Brasil, com capacidade para criar 16 espécies de aves para comercialização. Uma quarta empresa está sendo montada no Rio Grande do Sul, mas ainda não funciona comercialmente.

“Minas é um polo da falcoaria no país. Por isso pensamos em criar uma associação regional. No início era um clube sem compromisso, mas foi crescendo e chegamos a ter 46 associados, de todas as partes do país”, diz João Paulo Diogo Santos, diretor-técnico da ABFPAR e presidente da BH Hawking Club, fundada em 2011, e que, agora, é restrita a mineiros – conta com 25 membros apenas em Belo Horizonte. Para quem quer começar na área, ele indica a espécie gavião asa-de-telha, que corresponde a 70% dos animais usados pela falcoaria mundial. "Ela é muito dócil e de fácil treinamento".


João Paulo Santos, do BH Hawking Club, com sua espécie preferida, o falcão de coleira

Além de ser um hobby e de ter uso prático, especialmente para espantar aves urbanas em aeroportos e em empresas que precisam de ambiente limpo – por exemplo, a siderúrgica Belgo Bekaert faz uso da falcoaria –, os falcoeiros também gostam de levar a paixão por esses animais para outras pessoas. “A gente mantém um trabalho voluntário em escolas, para levar a educação ambiental às crianças”, explica João Paulo. O BH Hawking possui ainda uma parceria com o Ibama, para cuidar e recuperar aves de rapina, que foram apreendidas pelo órgão federal, e que precisam ser reintroduzidas na natureza.

Maior criadouro

A partir do interesse por animais selvagens e de um curso de aves de rapina, oferecido por um inglês, em 1986, Carlos Alberto Leão passou, então, a trabalhar com a falcoaria. Em 1997, após uma parceria com a polícia militar florestal em Patrocínio, a paixão pelas aves ficou tão forte que, no ano seguinte, criou o Centro de Reprodução de Falconiformes e Falcoaria (Cerefalco). “Sou técnico agrícola, mas minha paixão por esses animais está no sangue mesmo”, explica.

Hoje, o Cerefalco cria 16 espécies de aves de rapina para comercialização e quatro para preservação ambiental. “Eu atendo apenas aos falcoeiros, já que essas aves não são consideradas animais de estimação”, diz. O assunto está tão em moda, que o Cerefalco já está trabalhando para exportar sua criação para a Espanha. Falcoeiros espanhóis passaram quinze dias em Patrocínio para selecionar as espécies que querem levar para a Europa.

“Sou o único no Brasil que cria harpia”, conta o diretor do Cerefalco, que lembra ainda, que suas aves chegaram a participar de vários documentários nacionais e internacionais, como Amazônia: Planeta Verde, dirigido pelo cineasta francês Thierry Ragobert. “Nossas harpias são as únicas que voam livremente”, completa.

Carlos Alberto Leão e a maior ave de rapina criada pelo Cerefalco: a harpia

Segurança nos ares

Não é segredo para ninguém que alguns aeroportos no Brasil sofrem com o problema das aves que invadem suas pistas e mesmo seus espaços aéreos. Espécies como garças, urubus, pombos e gaivotas desconhecem os riscos de voar próximo às grandes “aves de metal”. Além de ser fatal para os animais, uma colisão com uma ave de grande porte pode gerar avarias em aviões e helicópteros, e, ainda pior, levar a graves acidentes.

Existem várias soluções sustentáveis para manter os aeroportos livres dessas espécies que insistem em voar próximo das aeronaves. Uma delas é a falcoaria. De acordo com a Infraero, os terminais de Confins, Pampulha, Galeão (Rio de Janeiro), Vitória (Espírito Santo) e Porto Alegre (Rio Grande do Sul), já utilizam aves de rapina para espantar as “intrusas”.

Através do programa Gestão do Perigo da Fauna Aeroportuária, a Infraero usa três espécies de aves de rapina nos aeroportos mineiros. São dois falcões – o quiri-quiri e o falcão-de-coleira –, e um gavião, o asa-de-telha. 

Dados do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos, o Cenipa, mostram que, em 2014, já foram registrados nove avistamentos de aves próximas à pista do terminal da Pampulha, além de uma colisão com aeronave. Em Confins, foram duas colisões apenas este ano. Vale lembrar que esses números não refletem totalmente a realidade, já que sua divulgação pelos pilotos e funcionários dos aeroportos é voluntária. Além disso, as colisões não significam, necessariamente, acidentes aéreos.


Encontro Mineiro de Falcoaria 2014
Pousada das Cores
Endereço: Rua José de Almeida Matias 380, Cocais, Minas Gerais
Data: 18 a 21/04/2014
Reservas: (31) 3837-9186
Informações: (31) 9393-6913 ou
http://www.bhhawkingclub.com.br/2014/02/encontro-mineiro-de-falcoaria-2014/


fonte:
http://sites.uai.com.br/app/noticia/encontrobh/atualidades/2014/04/10/noticia_atualidades,148259/conheca-a-arte-da-falcoaria-que-esta-na-moda-em-minas-gerais.shtml

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Nos mínimos detalhes...

Encontro reúne colecionadores de miniaturas em Belo Horizonte

A expectativa é que cerca de dois mil modelos serão exibidos. 
Existem coleções segmentadas em carros antigos e de corrida, além de dioramas com cenários que reproduzem oficinas ou cenas de guerra. 
Também serão exibidas miniaturas de marcas específicas, como Ferrari, Mercedes-Benz ou modelos clássicos como o Fusca.






O encontro acontece neste sábado (dia 12), partir das 14 horas, no bairro Cidade Nova à Rua Dr. Júlio Otaviano Ferreira, 772. 
Mais informações pelo telefone: (31) 3484-0038.

Confira a galeria de fotos:
http://estadodeminas.vrum.com.br/app/galeria-de-fotos/2013/09/13/interna_galeriadefotos,1648/miniaturas-de-carros-em-bh.shtml

Fonte: Estado de Minas

terça-feira, 8 de abril de 2014

Veja onde praticar Lian Gong em 18 Terapias em Belo Horizonte


Lian Gong em 18 Terapias é uma ginástica terapêutica desenvolvida especialmente para prevenir e tratar dores crônicas no corpo. É uma prática corporal fundamentada na Medicina Tradicional Chinesa, tem atuação importante na melhoria do funcionamento dos órgãos internos, trabalha a mente e as emoções e busca o prolongamento da vida com qualidade.
O Programa Lian Gong em 18 Terapias faz arte das ações de prevenção de doenças e de promoção da saúde do Sistema Único de Saúde de Belo Horizonte conforme orientações da Política Nacional de Promoção da Saúde e da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares. A prática é oferecida em 202 espaços públicos de Belo Horizonte por 290 trabalhadores/instrutores de Lian Gong.

Os principais benefícios são:

- Diminuição das dores no corpo
- Melhora na qualidade do sono
- Melhora na mobilidade
- Melhor controle da Hipertensão Arterial e Diabetes 
- Redução do uso de medicamentos
- Redução da demanda pelo atendimento nos Centros de Saúde
- Maior socialização

Características do Programa:

- Atividade física leve. Oferecida nos Centros de Saúde ou no seu entorno e em praças e parques de Belo Horizonte
- Acessível a pessoas de qualquer idade
- Não depende de equipamentos
- Executada em pé
- Duração de 30 a 60 minutos
- Mínimo duas  vezes/semana
- É recomendável que os praticantes usem roupas e calçados confortáveis que permitam movimentos amplos.


Clique AQUI e veja onde encontrar os locais de realização do Lian Gong


Como aperitivo, segue um vídeo:

segunda-feira, 7 de abril de 2014

A gralha-azul e a araucária



escrito por Carlos Hotta 

As plantas possuem muitas formas de espalhar as suas sementes pelo mundo. Algumas, como o dente-de-leão, usam o vento como dispersor. Outras plantas têm suas sementes espalhadas por animais. Um dos motivos para que uma planta espalhe suas sementes é garantir que seus descendentes cresçam em locais variados e, possivelmente, melhores que o seu. Outro motivo é evitar que as plantas-filhas disputem nutrientes do solo ou luz do sol com a planta-mãe. Um exemplo interessante de dispersão de sementes por animais é o caso da araucária e da gralha-azul. As gralhas são aves muito conhecidas por sua inteligência. A gralha-azul, ave símbolo do Paraná, coleta os pinhões liberados pela araucária e as enterra em diversos locais para comê-los depois. Como as gralhas não se lembram onde enterraram todos os pinhões, alguns acabam germinando. Assim, as gralhas-azuis são essenciais para a dispersão de sementes das araucárias. Os pinhões são sementes da araucária. As araucárias e os pinheiros são gimnospermas, plantas que não produzem frutos. A parte comestível dos pinhões é o tecido de reserva que vai alimentar o embrião da araucária e a araucária-bebê até eles crescerem o bastante para fazer o próprio alimento. Isso se nenhuma gralha azul comer o pinhão primeiro.

Aproveite para ler a história em quadrinhos de Antonio Eder publicada no site do Gralha, super-herói paranaense.
fonte:AQUI


Mais textos inteligentes como este estão em:

sábado, 5 de abril de 2014

5º Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta



Veja a programação AQUI 
Informações e inscrições AQUI



Fonte:http://brumasdotempo.blogspot.com.br/2014/04/v-ebdrc-2014.html

quinta-feira, 3 de abril de 2014

No tempo da Terra púrpura

A julgar pelo título, esta postagem poderia sugerir algo sobre um conto de fadas, mas não é nada disto.
Este é título de um artigo escrito por Salvador Nogueira, no blog Mensageiro Sideral da Folha de São Paulo, pra lá de interessante.
Confira!

Inspirado por uma fotografia tirada dos confins do Sistema Solar pela sonda Voyager-1, o saudoso astrônomo Carl Sagan apelidou nosso pequeno cantinho do Universo de “pálido ponto azul”. Mas se a foto tivesse sido tirada 3 bilhões de anos antes, provavelmente seria o “pálido ponto púrpura”. Ao menos segundo um grupo espanhol de cientistas. 

Continue lendo  AQUI






quarta-feira, 2 de abril de 2014

Arte em movimento

Mikhail Sadovnikov é um oleiro que faz de seu trabalho, algo que vai muito além do que peças em cerâmica, assista aos vídeos abaixo e veja do que ele é capaz.




terça-feira, 1 de abril de 2014

Bordadeiras de Minas

Rendas e bordados são boa fonte de renda para mulheres no interior de Minas
Em mais de 80% dos municípios do estado há bordadeiras que dão vida à atividade

A renda turca de bicos está entre as especialidades das artesãs,
que trabalham duro para atender a demanda


por Marta Vieira

Com todos os tropeços recentes da economia globalizada, as mulheres rendeiras e bordadeiras de Minas Gerais e do Brasil, que se firmaram na arte introduzida no país pelos portugueses e inspiraram a cultura e a música, podem dar boas aulas de educação financeira. A atividade, tão antiga e ainda repassada de mãe para filha, garante emprego e renda em centenas de municípios, resistindo à ameaça de morrer pelas mãos das gerações mais jovens, que não desgrudam da internet. A tradição, o amor pelo traçado de agulhas e linhas e a independência financeira conquistada tornaram conhecidos em todo o país grupos de profissionais da renda e do bordado das cidades de Sabará, na Região Metropolitana de Belo Horizonte; Barra Longa, na Zona da Mata mineira, e Barroso, na Região Central de Minas.
Mestra das artesãs da renda turca de bicos, protegida como bem cultural de natureza imaterial em Sabará, a mineira Nilza Starling Almeida, de 87 anos, não vacila na cadência de agulha e linha e nem mesmo ao se recordar de algumas das mais de 200 alunas a quem ensinou nos últimos 30 anos na cidade histórica. “Continuo gostando de desafios. Vou fazer 88 anos e o dia em que não dou alguns pontos não passa. Isso é que está me segurando”, repete durante os encontros às segundas e quartas-feiras com as 15 mulheres do grupo Requifife – Rendas e Bordados Finos.

Toalha em Richelieu

Artesã e líder administrativa do grupo, a filha Nayla Starling diz que não há como atender todo o volume de encomendas que chega, incluindo intermediários de clientes da França, Itália, Portugal e da Holanda. O portfólio é variado e rico em criatividade, oferecendo de toalhas de mão vendidas por R$ 30 a vestidos infantis comercializados a R$ 200. Uma única toalha de rosto pode consumir oito horas de trabalho e encantar do público que frequenta a Casa de Cultura de Sabará aos visitantes da Feira Nacional de Artesanato, realizada todo ano em BH, ou de outros eventos das quais o grupo participa. “Não tiramos férias do bordado. É como terapia, além de ajudar na vida financeira”, diz Nayla.
Os poucos dados mais recentes sobre a importância do artesanato dos bordados para o emprego e a renda dos brasileiros indicam que a atividade despontou, praticada em 74,2% dos municípios, em 2012, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ela constitui traço da cultura nacional, alcançando 93% dos municípios de Sergipe, o campeão no desenvolvimento dessa arte, e 82,1% das cidades do Espírito Santo. Minas é o terceiro colocado. Há bordadeiras no pleno exercício da profissão em 695 dos 853 municípios, quer dizer, em 81,5% do total. A abrangência do trabalho supera com larga vantagem o artesanato em madeira, que estava presente em 33,7% do país em 2012.

DO CRIVO AO RICHELIEU 

Não foi sem esforço que Barra Longa passou a ser conhecida como capital brasileira da renda. Há quem garanta que a atividade é a segunda em geração de emprego e renda na cidade produtora de leite, com seus 6 mil habitantes. Seja na área rural, seja dentro do perímetro urbano, não há casa que se preze sem mulheres afiadas na confecção de peças em crivo, fuxico e renda Richelieu, assim chamada em referência ao gosto pelos tecidos de linho de fino acabamento do lendário cardeal francês de Richelieu, conselheiro do rei Luiz XIII no século 17.
A Associação Barralonguense de Bordadeiras e Artesãos (Abba), criada em 2003, nasceu do empenho de mulheres como Maria Aparecida Lanna para fortalecer a produção e o comércio, que tem raízes na era da mineração de ouro na região. “Está no sangue. Vendemos pastel e organizamos bazar para conseguir os recursos e registrar a associação”, conta a artesã. 
A organização trouxe benefícios, como o acesso aos cursos de empreendedorismo do Sebrae, facilitando também a participação em feiras e eventos. A compra coletiva de matérias-primas (linhas e tecidos) direto das fábricas barateou o custo de produção das peças. Com patrocínio da Samarco Mineração, em 2010 a associação adquiriu máquina de overlock para acabamento, que o grupo usa de forma coletiva. As bordadeiras atendem demanda de diversos municípios, a exemplo de Santo Antônio do Grama, Santa Margarida, Guiricema e Acaiaca. 
Em Barroso, na Região Central de Minas, a Associação Ortópolis Barroso apoia o trabalho tradicional dos bordados. A artesã Eliana Ladinho Vale de Melo aderiu à legislação do microempreendedor em setembro do ano passado e já contrata os serviços de crochê de outras bordadeiras do município para dar conta de atender os pedidos. O marido, Geraldo dos Reis Melo, se associou no negócio, confeccionando as bases de madeira usadas em bandejas, porta-copos, caixas de bijuteria e maquiagem. O momento, agora, é pensar em como expandir a produção, conta Eliana. “Preciso de mais gente para trabalhar comigo. Há 50 anos faço do crochê um trabalho prazeroso e que complementa a renda da minha família”, afirma.

Fonte: http://www.em.com.br/app/noticia/economia/2014/03/31/internas_economia,513514/rendas-e-bordados-sao-boa-fonte-de-rendapara-mulheres-no-interior-de-minas.shtml

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