terça-feira, 30 de abril de 2013

Lendas dos Orixás: Ajalá (o oleiro primordial) e Ori

AJALÁ(*) MODELA A CABEÇA DO HOMEM


Odudua criou o mundo, 
Obatalá criou o ser humano.
Obatalá fez o homem de lama,
com corpo, peito, barriga, pernas, pés.
Modelou as costas e os ombros, os braços e as mãos. 
Deu-lhe ossos, pele e musculatura. 
Fez os machos com pênis 
e as fêmeas com vagina, 
para que um penetrasse o outro
e assim pudessem se juntar e se reproduzir.
Pôs na criatura coração, fígado e tudo o mais que está dentro dela,
inclusive o sangue. 
Olodumare pôs no homem a respiração 
e ele viveu. 
Mas Obatalá se esqueceu de fazer a cabeça
e Olodumare ordenou a Ajalá que completasse 
a obra criadora de Oxalá.
Assim, é Ajalá que faz as cabeças de dos homens e mulheres. 
Quando alguém esta para nascer,
vai à casa do oleiro Ajalá, o modelador de cabeças.
Ajalá faz as cabeças de barro e as cozinha no forno. 
Se Ajalá está bem, faz cabeças boas. 
Se está bêbado, faz as cabeças mal cozidas, 
passadas do ponto, malformadas. 
Cada um escolhe sua cabeça para nascer.
Cada um escolhe o ori(**) que vai ter na Terra.
Lá escolhe uma cabeça para si. 
Cada um escolhe seu ori
Deve ser esperto, para escolher cabeça boa. 
Cabeça ruim é destinho ruim, 
cabeça boa é riqueza, vitória, prosperidade,
tudo o que é bom.

(*) Ajalá =  orixá da Criação, é encarregado de fabricar as cabeças, ori; 
está esquecido no Brasil e Cuba.
(**) ori =  cabeça, destino.


Ajalá modela a cabeça do homem. Wande Abimbola, 1975, pp. 32-3, 125-32. 
Ajalá está esquecido no Brasil, tendo sido substituído por Iemanjá, a dona das cabeças, a quem se canta, no xirê, quando os iniciados tocam a cabeça com as mãos para lembrar esse domínio, e na cerimônia de sacrifício à cabeça (bori), rito que precede a iniciação ao orixá daquela pessoa. A cabeça, o ori, é associada ao destino, que não pode ser mudado, e mesmo a infelicidade é entendida como consequência de uma escolha mal feita. Em Cuba, conforme vários mitos, Odudua teria feito as cabeças, as quais são cultuadas no assentamento individual de cada iniciado da entidade denominada Ossum, que na mitologia africana é uma das mulheres de Orunmilá. Não confundir com Oxum. 


ORI(*) LIVRA ORUNMILÁ DE AMEAÇAS
Ori
Orunmilá estava um dia distraído
e de repente deu-se conta que era observado
por Morte, Doença, Perda, Paralisia e Fraqueza.
Orunmilá ouviu o que diziam,
que elas diziam umas às outras:
"Um dia a gente pega este aí".
Elas riam desavergonhadamente,
plantavam bananeira,
faziam micagens e gestos obscenos.
"Mais cedo ou mais tarde a gente pega este aí."
Orunmilá assustou-se.
Orunmilá voltou para casa.

Orunmilá foi consultar o seu Ori.
Somente Ori podia salvar Orunmilá.
Somente Ori podia livrar da Morte.
Só a cabeça poderia livrá-lo da Doença.
Era o Ori que o livraria da Perda.
O Ori de Orunmilá o livraria da Paralisia.
Somente seu Ori podia livrá-lo da Fraqueza.
Orunmilá foi consultar sua cabeça.
O Ori livra o homem dos males.
Orunmilá fez os sacrifícios à cabeça, fez bori(**).
Ori aceitou as comidas oferecidas,
ficou forte e expulsou os problemas de Orunmilá.
Nada mais podia ameaçar o seu devoto.
Ori salvou Orunmilá da Morte e da Doença,
da Perda, da Paralisia e da Fraqueza.
Ori livrou seu devoto de todas as ameaças.

(*) Ori = divindade da cabeça de cada indivíduo, recebe oferendas no ritual do bori.
(**) bori = sacrifício à cabeça; primeiro rito de iniciação no candomblé.

Ori livra Orunmilá de ameaças. Wande Abimbola, 1976, p.116.
O ritual do bori - literalmente, dar comida à cabeça - foi preservado no candomblé e é o sacrifício votivo que precede a iniciação sacrificial para o orixá. Antes do orixá, deve-se louvar a cabeça do devoto. Em iorubá os nomes da Morte, Doença, Perda, Paralisia e Fraqueza são: "Iku","Árùn", "Ófò","Ègbà", "Èsé".


Fonte: Mitologia dos Orixás - Reginaldo Prandi - Cia. das Letras

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Lendas dos Orixás: Orunmilá - Ifá - Orula

ORUNMILÁ RECEBE DE OBATALÁ O TÍTULO DE BABALAÔ 
Orúmila por Gil Abelha

Fazia muito tempo
que Obatalá admirava a inteligência de Orunmilá.
Em mais deu uma ocasião
Obatalá pensou em entregar a Orunmilá o governo do mundo.
Pensou em entregar a Orunmilá o governo dos segredos,
os segredos que governam o mundo
e a vida dos homens.
Mais quando refletia sobre o assunto
acabava desistindo.
Orunmilá, apesar da seriedade de seus atos,
era muito jovem para missão tão importante.
Um dia, Obatalá quis saber se Orunmilá
era tão capaz quanto aparentava
e lhe ordenou que preparasse a melhor comida
que pudesse ser feita.

Orunmilá preparou uma língua de touro
e Obatalá comeu com prazer.
Obatalá então, perguntou a Orunmilá por qual razão
a língua era a melhor comida que havia.
Orunmilá respondeu:
“Com a língua se concede axé(*),
se ponderam as coisas,
se proclama a virtude,
se exaltam as obras
e com seu uso os homens chegam à vitória”.
Após algum tempo, Obatalá pediu a Orunmilá
para preparar a pior comida que houvesse.
Orunmilá lhe preparou a mesma iguaria.
Preparou língua de touro.
Surpreso, Obatalá lhe perguntou como era possível
que a melhor comida que havia fosse agora a pior.
Orunmilá respondeu:
“Porque com a língua os homens se vendem e se perdem,
com a língua se destrói a boa reputação
e se cometem as mais repudiáveis vilezas”.
Obatalá ficou maravilhado com a inteligência
e precocidade de Orunmilá.
Entregou a Orunmilá nesse momento o governo dos segredos.
Orumilá foi nomeado babalaô,
palavra da língua dos orixás que quer dizer pai do segredo.
Orunmilá foi o primeiro babalaô.
 (*)axé = força mística dos orixás, força vital que transforma o mundo


ORUNMILÁ PREFERE A PACIÊNCIA À DISCÓRDIA E À RIQUEZA 
Orunmilá por Aurilda Sanches©
Orunmilá era um homem que nada sabia de seu passado ou futuro.
Ela nada tinha e mandaram que fizesse um ebó(**)
para que melhorasse suas condições de vida.
Assim feito.
Um dia, três mulheres vieram bater à sua porta.
Chamavam-se Paciência, Discórdia e Riqueza.
Todas queriam viver com Orunmilá, 
mas ele preferiu viver com Paciência.
As outras duas começaram a discutir por causa da escolha.
Uma dizia que a escolha de Orunmilá fora extravagante.
A outra dizia que isso era do gosto de cada um.
Como não se entendessem e se agredissem mutuamente,
trabalhadores das estradas mais próximas vieram separá-las.
Eles as levaram ao chefe local
e cada uma falou a seu modo do que acontecera.
Como ninguém podia testemunhar o fato,
levaram-nas até a casa do babalaô da aldeia,
o homem mais sábio do lugar,
o adivinho que poderia resolver a causa.
Quando elas o viram, disseram:
" É por causa deste homem que estamos brigando.
Porque ele ficou com Paciência
e desprezou a nós, Discórdia e Riqueza".
Então disse Orunmilá:
"Onde tem Paciência tem tudo.
Sem Paciência não podemos viver".
E disseram elas:
"Por isso vamos ficar com este homem,
porque onde tem Paciência tem tudo".
(**) ebó = oferenda


ORUNMILÁ TRAVA LONGA CONTENDA COM SEU ESCRAVO OSSAIM
Orunmilá-Ifá por Carybé
Orunmilá precisava de um escravo e foi ao mercado comprar um.
Entre todos, escolheu Ossaim.
Levou Ossaim para casa e o mandou desmatar
suas terras, onde deveria preparar o plantio.
Ossaim retornou sem ter cumprido as ordens de Orunmilá.
Questionado sobre o seu desmando, Ossaim explicou
que a maioria das ervas tinha o poder de cura
e assim não podia ser derrubada.

Orunmilá interessou-se por esse conhecimento
e nomeou Ossaim para acompanhá-lo nas sessões de adivinhação.
Não tardou para que as rivalidades surgissem,
principalmente porque Ossaim não aceitava ser submisso a Orunmilá.
Julgava-se mais importante que seu mestre.

Esse fato chegou aos ouvidos do rei Ajalaiê,
que resolveu submetê-lo a uma disputa,
para verificar quem era o mais antigo e mais importante.
Chamou-os e pediu que trouxessem seus filhos primogênitos.
Os dois seriam enterrados durante sete dias,
findos os quais seriam chamados.
Quem respondesse primeiro ao chamado seria declarado vencedor,
trazendo as honras para o pai.
O filho de Orunmilá chamava-se Sacrifício.
Orunmilá consultou Ifá para verificar se seu filho se salvaria.
Foi orientado a oferecer sacrifícios de comidas e animais.
Devia oferecer um coelho, um galo, e um bode,
além de um pombo e dezesseis búzios-da-costa.
As oferendas foram colocadas nos locais determinados,
dentre elas uma aos pés de Exu.
Com seu poder, Exu ressuscitou o coelho
e o coelho cavou um buraco
e levou alimento a Sacrifício, mantendo-o vivo.

O filho de Ossaim chamava-se Remédio.
Ele não tinha o que comer,
mas com feitiços poderosos conseguiu
chegar à casa de Sacrifício.
Pediu-lhe comida. Sacrifício negou.
Remédio propôs-lhe um pacto em troca da comida.
Ele manter-se-ia calado quando os chamassem.
Sacrifício aceitou e deu-lhe de comer.

Chegando o dia, ambos foram chamados,
mas somente Sacrifício respondeu ao apelo,
saindo vivo e vitorioso da cova.
Remédio saiu depois e Ossaim questionou o porquê de seu ato.
Ele contou ao pai sobre o pacto feito.
Orunmilá(***) ganhou e foi considerado mais importante que Ossaim,
porque o Sacrifício é mais eficaz que o Remédio.

(***)ORUNMILÁ = orixá do oráculo. Importantíssimo em Cuba, onde é chamado de ORULA, está praticamente esquecido no Brasil, exceto em alguns xangôs tradicionais de Pernambuco e em candomblés africanizados, em que seu culto vem sendo recuperado.

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Fonte: Mitologia dos Orixás - Reginaldo Prandi - Cia. das Letras

domingo, 28 de abril de 2013

Lendas dos Orixás: Oraniã

ORANIÃ(*) NASCE NEGRO E BRANCO E TEM DOIS PAIS

Ogum venceu a guerra contra Ogotum.
Do espólio da guerra trouxe sete escravas.
Uma delas era Lacangê, mulher de rara beleza.
Ogum amou-a em segredo, escondendo-a para si.
Mas seus falsos amigos revelaram o segredo a seu pai Odudua.
O pai ordenou a Ogum que trouxesse a escrava à sua presença.
Encantado com ela, Odudua a fez sua esposa.

Nove meses depois, Lacangê teve um filho.
O menino deixou a todos espantados.
Do lado direito, tinha a pele negra, como a de Ogum;
do lado esquerdo, a mesma pele alva de Odudua.
Ogum e Odudua entreolharam-se, sem nada dizer.
Esse menino recebeu o nome de Oraniã.
Um dia foi um grande guerreiro,
fundou o reino de Oió e foi pai de Xangô.


ORANIÃ CRIA A TERRA
Monolito em homenagem a Oraniã na cidade de Ifé.
Seu nome é Opa Òrànmíyàn(**).

No começo só havia água sob o céu
e nenhum ser vivente.
Olodumare, Deus Supremo, Senhor de Todas as Coisas,
criou primeiro sete príncipes e depois alguns artefatos.
Em sete sacos pôs búzios,tecidos, pérolas, pedras preciosas.
Criou um pano preto e nele embrulhou uma misteriosa substância.
Criou uma galinha e uma corrente e sete barras de ferro.
Na corrente pendurou os artefatos e os sete príncipes.
Pela corrente desceu tudo sobre as águas
e do alto do Céu deixou cair uma semente.
Da semente cresceu uma palmeira,
e a palmeira abrigou os sete príncipes.
Cada príncipe ganhou uma cidade para governar:
Oloú ganhou o reino de Egbá.
Onixabé, o reino de Savé.
Orangum foi o soberano de Ilá.
Oni, o rei de Ifé.
Ajerô recebeu Ijerô.
Alaqueto reinou em Queto.
Oraniã, o caçula, foi feito rei de Oió.

Antes de sair para suas cidades,
os irmãos repartiram entre si o que lhes havia dado Olodumate.
Os mais velhos ficaram com os búzios, o dinheiro,
com as pedras preciosas e as jóias,
os tecidos preciosos e outras riquezas.
O mais jovem, que era Oraniã, ficou com a galinha,
as sete barras de ferro e o embrulho de pano preto.
Quando Oaniã abriu o pano,
deparou com uma escura e estranha substância,
que jogou na água.
A substância boiou na superfície 
e a galinha, voando sobre o montículo,
pôs-se a ciscar a tal matéria.
O montículo cresceu e cresceu
e assim a Terra foi criada.
Oraniã desceu à Terra e tomou posse dela.
Mas os irmãos mais velhos viram a Terra
e pretenderam tomar posse dela.
Oraniã tomou suas sete barras de ferro como armas
e com elas defendeu a Terra da cobiça dos irmãos.
Oraniã venceu os irmãos e poupou suas vidas.
Todos foram reis.
Todos deveram subserviência a Oraniã.
Oraniã foi o grande rei de Oió,
e Oió, a capital de todas as cidades.

(*) Oraniã = orixá das profundezas da Terra, filho de Odudua e rei de Ifé.

(**) O  monumento lítico Opá Oraniã [Ọpà Ọrànmíyán] é um símbolo não só da cidade de Ifé-Ifé, considerada  o braço da civilização iorubá, mas da própria cultura desse povo.


Fonte: Mitologia dos Orixás - Reginaldo Prandi - Cia. das Letras

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Lendas dos Orixás: Odudua

ODUDUA(*) BRIGA COM OBATALÁ E O CÉU E A TERRA SE SEPARAM
imagem: Oduduwa em Mondo Yoruba

No principio de tudo, 
quando não havia separação entre o Céu e a Terra, 
Obatalá(**) e Odudua(**) viviam juntos dentro de uma cabaça. 
Viviam extremamente apertados um contra o outro,
Oduduá embaixo e Obatalá em cima.
Eles tinham sete anéis que pertenciam aos dois. 
À noite eles colocavam os anéis.
Aquele que dormia por cima sempre colocava quatro anéis
e o que ficava em baixo sempre colocava os três restantes.
Um dia Odudua, deusa da Terra, quis dormir por cima 
para poder usar nos dedos quatro anéis.
Obatalá, o deus do Céu, não aceitou.
Tal foi a luta que travaram os dois lá dentro
que a cabaça acabou por se romper em duas metades.
A parte inferior da cabaça, com Odudua permaneceu embaixo,
enquanto a parte superior, com Obatalá, ficou em cima,
separando-se assim o Céu da Terra.
No inicio de tudo, Obatalá, deus do Céu, 
e Odudua, deusa da Terra viviam juntos.
A briga pelos anéis os separou 
e separou o Céu da Terra.

ODUDUA É ENCARREGADO DE DOTAR OS HOMENS DE CABEÇA
 http://www.4shared.com/all-images/TfAP0DVC/Imagens.html

Quando Olodumare quis fazer o mundo,
desceu com Obatalá para realizar a sua obra.
No entusiasmo da Criação, Olofim fez coisas maravilhosas,
como as árvores, as nuvens, o arco-íris e os pássaros,
mas também teve fracassos e deixou as coisas pela metade.
Os homens, por exemplo, foram feitos sem cabeça
e a obra pareceu a Olofim imperfeita, inconclusa.
Incomodado com o desacerto, Olofim encarregou Odudua
de fazer cabeças para os homens.
Odudua fez as cabeças,
mas as deixou com apenas um olho.
Também não gostou do resultado Olodumare
e encarregou Obatalá de colocar dois olhos onde estão agora.
Foi ele que também deu aos homens uma boca,
além de ter-lhe dado a voz e as palavras que saem dela.
Os homens, então, passaram a ser como os conhecemos
e tudo parecia bem.

Hoje, no entanto, toda a Criação de Olofim
está ameaçada de destruição pela ação dos homens,
pois alguma coisa neles não funciona bem.
Não se sabe se foi por algum erro de Olofim,
ou se foi por algum descuido de Odudua.

(*) Odudua ou Odùdúwà = orixá da Criação; criador da Terra; masculino ou feminino.

(**) Na versão de 1884, a briga se deu pela falta de espaço dentro da cabaça; 
não cita anéis.
Outras variantes falam de Obatalá e Iemu, sua esposa. Na maioria dos mitos, Odudua é masculino, em outros feminino. Também Obatalá aparece ora masculino, ora feminino; no Brasil quase sempre considerado masculino e, em Cuba, feminino.


Fonte: Mitologia dos Orixás - Reginaldo Prandi - Cia. das Letras

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Lendas dos Orixás: Ajê Xalugá


AJÊ XALUGÁ CEGA OS HOMENS E TAMBÉM PERDE A VISÃO

Ajê Xalugá é a irmã mais nova de Iemanjá.
Ambas são as filhas prediletas de Olocum.
Quando a imensidão das águas foi criada,
Olocum dividiu os mares com suas filhas
e cada uma reinou numa diferente região do oceano.
Ajê Xalugá ganhou o poder sobre as  marés.
Eram nove as filhas de Olocum
e por isso se diz que são nove as Iemanjás.
Dizem que Iemanjá é a mais velha Olocum
e que  Ajê Xalugá é a Olocum caçula,
mas de fato ambas são irmãs apenas.
Olocum deu às suas filhas os mares
e também todo o segredo que há neles.
Mas nenhuma delas conhece os segredos todos,
que são os segredos de Olocum.
Ajê Xalugá era, porém, menina muito  curiosa
e sempre ia bisbilhotar em todos os mares.
Quando Olocum saía para o mundo,
Ajê Xalugá fazia subir a maré
e ia atrás cavalgando sobre as ondas.
Ia disfraçada sobre as ondas,
na forma de espuma borbulhante
que brilhava ao sol tão intensamente.
Tão intenso e atrativo era tal brilho
que às vezes cegava as pessoas que olhavam.
Um dia Olocum disse à sua filha caçula:
"O que dás para os outros tu também terás,
serás vista pelos outros como te mostrares.
Este será o teu segredo, mas saiba
que qualquer segredo é sempre perigoso".
Na próxima vez que Ajê Xalugá saiu nas ondas,
acompanhando, disfarçada, as andanças de Olocum,
seu brilho era ainda bem maior,
porque maior era seu orgulho, agora detentora do segredo.
Muitos homens e mulheres
olhavam admirados o brilho intenso das ondas do mar
e cada um com o brilho ficou cego.
Sim, o seu poder cegava os homens e as mulheres.
Mas quando Ajê Xalugá também perdeu a visão,
ela entendeu o sentido do segredo.
Iemanjá está sempre com ela,
quando sai para passear nas ondas.
Ela é a irmã mais nova de Iemanjá.


Fonte: Mitologia dos Orixás - Reginaldo Prandi - Cia. das Letras

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Lendas dos Orixás: Onilé


ONILÉ GANHA O GOVERNO DA TERRA
Onilé ilustação por Pedro Rafael para
para o livro Mitologia dos Orixás

Onilé (*)era a filha mais recatada e discreta de Olodumare.
Vivia trancada em casa de seu Pai e ninguém a via.
Quase nem se sabia de sua existência.
Quando os Orixás seus irmãos se reuniam no Palácio do grande pai
para as grandes audiências
em que Olodumare comunicava suas decisões,
Onilé fazia um buraco no chão e se escondia,
pois sabia que as reuniões sempre terminavam em festa,
Onilé não se sentia bem no meio dos outros.

Um dia o grande deus mandou seus arautos avisarem:
haveria uma grande reunião no palácio
e os orixás deveriam comparecer ricamente vestidos,
pois ele iria distribuir entre os filhos as riquezas do mundo
e depois haveria muita comida, música e dança.
Por todos os lugares os mensageiros gritaram essa ordem
e todos se prepararam com esmero para o grande acontecimento.

Quando chegou por fim o grande dia,
cada orixá dirigiu-se ao palácio na maior ostentação,
cada um mais belamente vestido que o outro,
pois este era o desejo de Olodumare.
Iemanjá chegou vestida com a espuma do mar,
e os braços ornados de pulseiras de algas marinhas
a cabeça cingida por um diadema de corais e pérolas,
o pescoço emoldurado por uma cascata de madrepérola.
Oxóssi escolheu uma túnica de ramos macios,
enfeitada de peles e plumas dos mais exóticos animais.
Ossaim vestiu-se com um manto de folhas perfumadas.
Ogum preferiu uma couraça de aço brilhante,
enfeitada com tenras folhas de palmeira.
Oxum escolheu cobrir-se de ouro,
trazendo nos cabelos as águas verdes dos rios.
As roupas de Oxumaré mostravam todas as cores,
trazendo nas mãos os pungos frescos da chuva.
Iansã escolheu para se vestir-se um sibilante vento
e adornou os cabelos com raios que colheu da tempestade.
Xangô não fez por menos e cobriu-se com o trovão.
Oxalá trazia o corpo envolto em fibras alvíssimas de algodão
e a testa ostentando uma nobre pena vermelha de papagaio.
E assim por diante.
Não houve quem não usasse toda a criatividade
para apresentar-se ao grande pai com a roupa mais bonita.
Nunca se vira antes tanta ostentação, tanta beleza, tanto luxo.
Cada orixá que chegava ao palácio de Olodumare
provocava um clamor de admiração,
que se ouvia por todas as terras existentes.
Os orixás encantaram o mundo com suas vestes.
Menos Onilé.
Onilé não se preocupou em vestir-se bem.
Onilé não se interessou por nada.
Onilé não se mostrou para ninguém.
Onilé recolheu-se a uma funda cova que cavou no chão.

Quando todos os orixás haviam chegado,
Olodumare mandou que fossem acomodados confortavelmente,
sentados em esteiras dispostas ao redor do trono.
Ele disse então à assembleia que todos que eram bem-vindos.
Que todos os filhos haviam cumprido seu desejo
e que estavam todos tão bonitos que ele não saberia
escolher qual seria o mais vistoso e belo.
Tinha todas as riquezas do mundo para dar a eles,
mas nem sabia como começar a distribuição.
Olorum fletiu por um bom tempo e disse
que seus próprios filhos tinham feito suas escolhas.
Ao escolherem o que achavam o melhor da natureza,
para com aquela riqueza se apresentar perante o pai,
eles mesmos já tinham feito a divisão do mundo.
Então Iemanjá ficava com o mar,
Oxum com o ouro e os rios.
A Oxóssi deu as matas e todos os seus bichos,
reservando as folhas para Ossaim.
Deu a Iansã o raio e a Xangô o trovão.
Fez Oxalá dono de tudo que é branco e puro,
de tudo o que é o princípio, deu-lhe a criação do homem.
Destinou a Oxumarê o arco-íris e a chuva.
A Ogum deu o ferro e tudo o que se faz com ele,
inclusive a guerra.
E assim por diante.
Confirmou Exu no cargo de mensageiro dos deuses,
pois nenhum outro era capaz de se movimentar como ele.
Mas como Exu se cobrira todo com búzios para a reunião,
e como búzios era dinheiro, Olodumare também dava a ele
o patronato dos mercados e o governo das trocas.

Olodumare deu assim a cada orixá um pedaço do mundo,
uma parte da natureza, um governo particular.
Dividiu de acordo com o goto de cada um.
E disse que a partir de então cada um seria o dono
e o governador daquela parte da natureza.
Assim, sempre que um humano tivesse alguma necessidade
relacionada com uma daquelas partes da natureza,
deveria pagar uma oferenda ao orixá que a possuísse.
Pagaria em oferendas de comida, bebida ou outra coisa
que fosse predileção do orixá.
Os orixás, que tudo tinham ouvido em silêncio,
começaram a comemorar, cantando e dançando de júbilo.
Era grande o alarido na corte, a festa começava.
Mas Olorum-Olodumare levantou-se e pediu silêncio,
pois a divisão do mundo ainda não estava concluída.
Disse que faltava ainda a mais importante das atribuições.
Que era preciso dar a um dos filhos o governo da Terra,
o mundo no qual os humanos viviam
e onde produziam as comidas, bebidas e tudo o mais
que deveriam ofertar aos orixás.
Disse que dava a Terra a quem se vestia da própria Terra.
Quem será?, perguntaram-se todos.
"Onilé", respondeu  Oludumare.
"Onilé?", todos se espantaram.
Como, se ela nem se quer viera à grande reunião?
Nenhum dos presentes a vira até então.
Nenhum sequer notara sua ausência.
"Pois Onilé está entre nós", disse Olodumare,
e mandou que todos olhassem no fundo da cova,
onde se abrigava, vestida de terra, a discreta e recatada filha.
Ali estava Onilé, em sua roupa de terra.
Onilé, a que também foi chamada Ilé, o país, o planeta.
Olodumare disse que cada um que habitava a Terra
pagasse tributo a Onilé,
pois ela era a mãe de todos, o abrigo, a casa.
A humanidade não sobreviveria sem Onilé.
Afinal, onde ficava cada uma das riquezas
que Olodumare partilhara os filhos orixás?
"Tudo está na Terra, disse Oloduare.
"O mar, os rios, o ferro e o ouro,
 os animais e as plantas, tudo" continuou.
"Até mesmo o ar e o vento, a chuva e o arco-íris,
tudo existe porque a Terra existe,
assim como as coisas criadas para controlar os homens
e os outros seres vivos que habitam o planeta,
como a vida, a saúde, a doença e mesmo a morte."
Pois então, que cada um pagasse o tributo a Onilé,
foi a sentença final de Olodumare.

Onilé, Orixá da Terra, receberia mais presentes que os outros.
Deveria ter oferendas dos vivos e dos mortes,
pois na Terra também repousam os corpos dos que já não vivem.
Onilé, também chamada Aiê, a Terra, deveria ser propiciada sempre,
para que o mundo dos humanos nunca fosse destruído.
Todos os presentes aplaudiram as palavras de Olodumare.
Todos os orixás aclamaram Onilé.
Todos os humanos propiciaram a mãe Terra.

E então Olodumare retirou-se do mundo para sempre
e deixou o governo de tudo por conta dos seus filhos orixás.


(*) ONILÉ = LITERALMENTE, DONA DE ILÊ, DONA DA TERRA. ORIXÁ FEMININO POUCO CONHECIDO NO BRASIL, HOMENAGEADO, CONTUDO, EM CANDOMBLÉS TRADICIONAIS DA BAHIA E CANDOMBLÉS AFRICANIZADOS, ESPECIALMENTE NO INÍCIO DO XIRÊ. TAMBÉM CHAMADA AIÊ.

Fonte: Mitologia dos Orixás - Reginaldo Prandi - Cia. das Letras

terça-feira, 23 de abril de 2013

Ogum - A força transformadora

Ogum por Martinez/1987(*)

Para tudo que se vai fazer na vida é necessário que uma força dê partida. Qualquer movimento que se faça é gerado por energia, e para essa energia adquirir movimento é necessário que haja uma transformação da mesma.
O elemento da natureza que comanda a transformação é o fogo.
E, ao estudarmos a origem da palavra OGUM, verificamos que ela é uma correspondência fonética da palavra AGAUM. Decompondo esta, encontra-se o seu significado direto. Assim temos: AG que significa fogo, AUM que significa salvação, glória, inovação.
Juntando as duas traduções teremos o seguinte:" O fogo da salvação ou o fogo da glória, ou ainda, o fogo da inovação. A salvação significa a volta a Deus; a glória representa o vencedor de uma luta; a inovação significa a modificação ou transformação".
Juntando, então, todas as palavras traduzidas, teremos: 
Glória - luta vencedora;
fogo - transformação;
salvação - sagrado (a volta a Deus); 
inovação - transformação e 
Ogum - luta sagrada pela transformação.
Isso significa que Ogum é a força (luta) inicial para que haja a transformação. É o ponto de partida, aquele que vai na frente.
É sobre esta linha de força espiritual que se agrupam todos os espíritos que controlam os choques (lutas) consequentes da execução da lei cármica, que cobram e reajustam dentro da Grande Lei e dos consequentes efeitos causados pela aplicação da lei cármica.
Portanto, Ogum se manifesta como um soldado.


SUAS FALANGES:
1) Ogum Beira Mar (inclusive 7 Ondas)
2) Ogum Rompe-Mato
3) Ogum Megê
4) Ogum Naruê
5) Ogum Matinata
6) Ogum Yara
7) Ogum Delê (ou Ogum de Lei)

Ogum Beira-Mar

Ogum Beira Mar
Também conhecido como Ogum do Mar ou Ogum das Ondas. Na areia molhada e considerado Beira-Mar e nas ondas é conhecido como 7 Ondas. Vibra nas cores vermelha e branca, onde branco é Oxalá e vermelho é o fogo ou a luta.
Ele atua rondando a calunga grande (o mar) ou o reino de Iemanjá na areia molhada ou nas 7 ondas.

Ogum e Oxóssi por Martinez/1983(**)

Ogum Rompe-Mato
Sua falange trabalha cruzada com Oxóssi, rondando as matas ou também as pedreiras onde é conhecida como Ogum das Pedreiras, e neste caso trabalha cruzada com Xangô. Vibra nas cores vermelha e branca, ou muitas vezes verde e vermelho combinado com branco.
Normalmente, o verde e o vermelho são uados para Ogum das Pedreiras, pois a combinação destas cores gera o marrom.

Ogum Megê

Ogum Megê
Sua falange é responsável pela ronda da calunga pequena ou cemitério, trabalhando na calçada que o cerca. Lida diretamente com a linha das almas. Vibra nas cores branca e vermelha.

Ogum Naruê por Rev.King Skull

Ogum Naruê
Esta falange de Ogum trabalha desmanchando a magia negra, operando dentro da linha das almas, exercendo especial domínio sobre as almas quimbandeiras.
Vibra nas cores branca e vermelha.

Ogum Matinata
Junto com suas falanges,defende os campos onde se assentam as obrigações para Oxalá, principalmente nas colinas floridas. É uma falange muito difícil de incorporar e, por isso, pouco médiuns conseguem tê-lo como guia. Vibra nas cores branca e vermelha, com maior predominância do branco. 

Ogum Yara
É a falange de Ogum que ronda os rios,lagos e cachoeiras. É o grande colaborando dos trabalhos de Oxum. Vibra nas cores branca e vermelha e algumas vezes com verde e vermelho simbolizando a mata, já que normalmente estes campos sagrados se encontram dento dela.

Ogum Delê
Esta falange carrega a vibração pra de Ogum. Efetua sua ronda sobre o mundo. É a própria lei que rege os reajustes cármicos. Vibra nas cores branca e vermelha.


Fonte:
Textos de autoria de Adilvar Brasão de Freitas para a Revista Planeta - Especial Cultos Afro-brasileiros - Edição de 1996
Imagens (*) e (**) constantes na mesma revista

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Lendas dos Orixás: Olocum

OLOCUM ACOLHE TODOS OS RIOS E TORNA-SE A RAINHA DA ÁGUAS
Olokun
Olocum, a senhora do mar,
e Olossá, a senhora do lago,
andavam ambas muito preocupadas.
As águas já não eram suficientes para suprir
as necessidades do povo, que já padecia
da sede provocada pela longa seca.
Olocum e Olossá foram aos pés de Orunmilá,
que as aconselhou a fazer oferendas
para que a abundância das águas retornasse.
Era um sacrifício grande para ambas,
mas Olocum cumpriu o recomendado.
Olossá, porém, ofereceu seus sacrifícios incompletos.
E veio a chuva e choveu tanto
que as águas já não cabiam no curso dos rios.
Oxum, o rio, foi consultar Ifá
para saber que destino dar ao curso de suas águas.
Oxum foi orientada por Ifá para procurar um lugar onde fosse bem recebida.
Assim, Oxum reuniu as águas do rio
e seguiu caminho.
Encontrou a lagoa, encontrou ossá(*),
e nela se precipitou,
mas as águas da lagoa transbordaram.
Deixou a lagoa e chegou ao mar, o ocum(**),
e ali derramou todas as suas águas
e o mar recebeu o rio Oxum sem transbordar.
Então todos os rios fizeram a mesma rota
e encaminharam suas águas para o mar, o ocum.
E Olossá teve que se conformar com o segundo posto.
Olocum fez corretamente o sacrifício.
Olocum é a rainha de todas as águas.
(*) ocum = oceano, mar
(**) ossá = lago, logoa, mar


OLOCUM ISOLA-SE NO FUNDO DO OCEANO
Olocum vivia na água e vivia na terra, 
a natureza de Olocum era anfíbia.
Olocum tinha vergonha de sua natureza, 
pois ela não era nem uma coisa nem outra.
Ela se sentia muito atraída por Orixá Ocô,
mas não queria ter relações com ele,
pois temia ser objeto de ridículo. 
Olocum, então, pediu conselho a Olofim, 
que lhe assegurou que Orixá Ocô 
era um homem sério e reservado.
Olocum criou coragem e foi viver com o orixá lavrador,
mas este descobriu a particularidade 
que existia na natureza de Olocum e contou a todos.
Todos ficaram sabendo da ambígua natureza de Olocum.
A vergonha fez com que Olocum se escondesse no fundo do oceano, 
onde tudo é desconhecido e aonde ninguém nunca pode chegar.
Olocum nunca mais deixou o mar 
e agora só esse é o seu domínio, 
outros dizem que Olocum se transformou numa sereia, 
ou uma serpente marinha que habita os oceanos.
Mas isso ninguém jamais pôde provar.

Fonte: Mitologia dos Orixás - Reginaldo Prandi - Cia. das Letras

Quem é Olokun?
Saiba mais em:
http://mitographos.blogspot.com.br/2010/05/olokun.html

domingo, 21 de abril de 2013

Lendas dos Orixás: Iemanjá


IEMANJÁ TEM SEU PODER SOBRE O MAR CONFIRMADO POR OBATALÁ
http://nomadeescoladepoesia.blogspot.com.br/2013/02/iemanja-rainha-do-mar.html

Um dia, no princípio dos tempos,
orixás e homens revoltaram-se contra Iemanjá,
pois Iemanjá, sempre que queria,
saía das profundezas e invadia a terra com suas águas.
Orixás e homens, unidos, procuraram Olorum,
que enviou Obatalá à Terra para averiguar a acusação.
Eleguá, que tudo escutou, avisou Iemanjá
e aconselhou-a a consultar Ifá.
Feito isso, Iemanjá ofereceu um carneiro em sacrifício
contra o poder de seus inimigos.
Enquanto Obatalá, em Ifé, escutava protestos,
protestos dos homens e dos orixás,
Iemanjá invadiu de novo a terra
e as águas inundaram tudo
e chegaram até onde estava o grande rei.
Cavalgando as ondas do mar vinha Iemanjá.
Vitoriosa e soberba, sobre as onda enfurecidas,
ela mostrava sua oferenda.
Iemanjá mostrava a cabeça do carneiro.
Lá estava Obatalá e lá estava Iemanjá
e Iemanjá tinha alguma coisa preciosa para Obatalá.
Iemanjá fizera o sacrifício
e Obatalá aceitou a oferenda.
Obatalá confirmou o poder de Iemanjá.
Nunca se passa muito tempo
sem que o mar invada a terra,
Iemanjá cavalgando a temida maré.


IEMANJÁ CURA OXALÁ E GANHA O PODER SOBRE AS CABEÇAS
http://elekomulheresguerreiras.blogspot.com.br/2013/02/yemanja-e-danca-sagrada-das-aguas.html

Quando Olodumare fez o mundo,
deu a cada orixá um reino, um posto, um trabalho.
A Exu deu o poder da comunicação e a posse das encruzilhadas.
A Ogum deu o poder da forja, o comando da guerra 
e o domínio dos caminhos.
A Oxóssi ele entregou o patronato da caça e da fartura.
A Obaluaê deu o controle das epidemias.
Oloduramare deu a Oxumarê o arco-íris
e o poder de comandar a chuva, 
que permite as boas colheitas e afasta a fome.
Xangô recebeu o poder do trovão e o império da lei.
Oyá-Iansã ficou com o raio e o reino dos mortos,
enquanto Euá foi governar os cemitérios.
Olodumare deu a Oxum o zelo pela feminilidade, 
riqueza material e fertilidade das mulheres.
Deu a Oxum o amor.
Obá ganhou o patronato da família
e Nanã, a sabedoria dos mais velhos,
que ao mesmo tempo é o principio de tudo,
a lama primordial com que Obatalá modela os homens.
A Oxalá deu Olodumare o privilégio de criar o homem,
depois que Odudua fez o mundo.
E a criação se completou com a obra de Oxaguiã,
que inventou a arte de fazer utensílios,
a cultura material.
Para Iemanjá, Olodumare destinou os cuidados de Oxalá.
Para a casa de Oxalá, foi Iemanjá cuidar de tudo:
de casa, dos filhos, do marido, da comida, enfim.
Iemanjá nada mais fazia que trabalhar e reclamar.
Se todos tinham algum poder no mundo,
um posto pelo qual recebiam sacrifício e homenagens,
por que ela deveria ficar ali em casa feito escrava?
Iemanjá não se conformou.
Ela falou, falou e falou nos ouvidos de Oxalá.
Falou tanto que Oxalá enlouqueceu.
Seu ori(*), sua cabeça, não aguentou o falatório de Iemanjá.
Iemanjá deu-se então conta do mau que provocara
e tratou de Oxalá até restabelecê-lo.
Cuidou de seu ori enlouquecido,
oferecendo-lhe agua fresca, 
obis deliciosos (**), apetitosos pombos brancos, frutas dulcíssimas.
E Oxalá ficou curado.
Então, com o consentimento de Olodumare,
Oxalá encarregou Iemanjá de cuidar do ori de todos os mortais.
Iemanjá ganhara enfim a missão tão desejada.
Agora ela era a senhora das cabeças.
(*) ori = cabeça, destino

(**) obi = noz-de-cola, fruto africano aclimatado no Brasil (cola acuminata, Streculiacea (grafia que consta no livro)), indispensável nos ritos do candomblé; 
substituído em Cuba pelo coco.


IEMANJÁ SALVA O SOL DE EXTINGUIR-SE 

Orum, o Sol, andava exausto.
Desde a criação do mundo ele não tinha dormido nunca.
Brilhava sobre a Terra dia e noite.
Orum já estava a ponto de exaurir-se, de apagar-se.
Com seu brilho eterno, Orum maltratava a Terra.
Ele queimava a Terra dia após dia.
Já quase tudo estava calcinado
e os humanos já morriam todos. 
Os orixás estavam preocupados
e reuniram-se para encontrar uma saída.
Foi Iemanjá quem trouxe a solução.
Ela guardara sob as saias alguns raios de Sol.
Ela projetou sobre a Terra os raios que guardara
e mandou que o Sol fosse descansar,
para depois brilhar de novo.
Os fracos raios de luz formaram um outro astro. 
O Sol descansaria para recuperar suas forças
e enquanto isso reinaria Oxu, a Lua.
Sua luz fria refrescaria a Terra
e os seres humanos não pereceriam no calor.
Assim, graças a Iemanjá, o Sol pode dormir.
À noite, as estrelas velam por seu sono,
até que a madrugada traga um outro dia.

Fonte: Mitologia dos Orixás - Reginaldo Prandi - Cia. das Letras

sábado, 20 de abril de 2013

Lenda dos Orixás: Ibejis

OS IBEJIS NASCEM DE OIÁ E SÃO CRIADOS POR OXUM
Oxum e os Ibejis

Oiá andava pelo mundo disfarçada de novilha.
Um dia Oxóssi a viu sem pele e se apaixonou.
Casou-se com Oiá e escondeu a pele da novilha,
para ela não fugir.
Oiá teve dezesseis filhos com Oxóssi.
Oxum, que era a primeira esposa de Oxóssi
e que não tinha filhos,
foi quem criou todos os filhos de Oiá.
O primeiro a nascer chamou-se Togum.
Depois nasceram os gêmeos, os Ibejis,
e depois deles, Idoú.
Nasceu depois a menina Alabá,
seguida do menino Odobé.
E depois os demais filhos de Oiá e Oxóssi.
Os meninos pareciam-se com o pai,
as meninas, com a mãe.
Oiá tinha os filhos que Oxum criava
e assim viviam na casa de Oxóssi.
Um dia as duas mães se desentenderam.
Oxum mostrou a Oiá onde estava sua pele.
Oiá recuperou a pele de novilha,
reassumiu sua forma natural e fugiu.


 OS IBEJIS SÃO TRANSFORMADOS NUMA ESTATUETA
Ibejis por Gil Abelha

São filhos de Iemanjá
os dois meninos gêmeos, os Ibejis.
Os Ibejis passavam o dia a brincar.
Eram crianças e brincavam com Logm Edé
e brincavam com Euá.
Um dia, brincavam numa cachoeira
e um deles se afogou.
O Ibeji que ficou começou a definhar,
tão grandes eram sua tristeza e solidão,
melancólico e sem interesse pela vida.
Foi então a Orunmilá e suplicou
que Orunmilá trouxesse o irmão de volta.
Que Orunmilá os reunisse de novo,
para que brincassem juntos como antes.
Orunmilá não podia ou não queria fazer tal coisa,
mas transformou a ambos em imagens de madeira
e ordenou que ficassem juntos para sempre.
Nunca mais cresceriam,
não se separariam.
São dois gêmeos-meninos
brincando eternamente, são crianças.


Fonte: Mitologia dos Orixás 0 Reginaldo Prandi- Cia. das Letras

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Lendas dos Orixás: Iá Mi Odu e Iá Mi Oxorongá - Mães Ancestrais

IÁ MI ODU* FICA VELHA E MORRE
Ìyàmì-Odu = Recipiente – Útero – Cabaça – O Planeta – Ovo – Esfera existencial(*)

Iá Mi Odu fez oferendas a Ifá para saber seu futuro.
Ficou dito que Odu viveria muito.
Odu se tornaria muito velha.
Sua cabeça ficaria toda branca.
Quando a velhice chegou,
Odu prepararou-se para deixar este mundo.
Mas antes de morrer Odu queria deixar algo que a substituísse
quando seus filhos precisassem dela.
Odu deixaria uma cabaça especialmente preparada
e através da cabaça seus filhos estariam em contanto com ela.
Iá Mi foi procurar seus quatro conselheiros:
Obatalá, Obaluaê, Ogum, Odudua.
Ela os chamava porque queria falar com sua gente antes de partir.
Odu tinha que ir pra o lugar dos velhos
e queria que seus companheiros protegessem seus filhos,
que continuariam a viver na Terra.
Vendo que Odu queria mesmo partir, os quatro orixás concordaram.
Cada um deles tinha seu ibá, sua cabaça-assentamento,
onde cada um estava representado,
e seria também por meio da cabaça
que os filhos de Odu invocariam os orixás,
sempre que precisassem de seu socorro.
Foi o pacto que os orixás fizeram com Odu.
E tudo que havia nos ibás dos orixás
deveria haver no ibá de Iá Mi Odu.
Odu preparou uma cabaça maior que a dos orixás.
Então Obatalá trouxe sua cabaça de efum para Odu.
Tudo o que os filhos de Odu pedisse àquele ibá  eles teriam.
Obaluaê trouxe sua cabaça de ossum para Odu.
Todas as coisas que os filhos de Odu pedissem
à cabaça de Obaluaê eles receberiam.
Ogum trouxe sua cabaça de carvão para Odu.
Se os filhos de Odu adorassem o assentamento de Ogum,
não morreriam na infância e não sofreiam na velhice.
Odudua trouxe seu ibá de lama para Odu.
Os filhos de Odu adorariam a cabaça de Odudua
e teriam sempre sua proteção.
Assim, Odu tinha s quatro elementos primordiais do mundo
dentro daquelas quatro cabaças.
Odu tomou desses elementos para preparar o seu ibá.
Odu estava velha, mas antes de morrer
ela preparou seu assentamento, seu altar.
Seus filhos poderiam adorar a mãe adorando seu ibá.
E todo babalaô que quisesse adorar Orunmilá,
antes teria que adorar a sua esposa Odu,
que está representada no ibá
que os sacerdotes chamam de "aperê igbodu",
que significa assentamento para culto de Ifá,
e pertence a Orunmilá e a Odu, sua mulher.
Os destinos dos filhos de Odu estão inscritos em seu ibá.
Nossa Mãe Odu envelheceu e teve que partir,
mas seus filhos nunca estarão sozinhos neste mundo.
Os filhos de Iá Mi somos nós, os seres humanos.
Iá Mi Odu é nosa mãe Oxorongá.


IÁ MI CHEGAM AO MUNDO COM SEUS PÁSSAROS MALÉFICOS
Ia Mi - ilustração de Pedro Rafael para o livro
Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi

As Iá Mi Oxorongá são nossas mães primeiras,
raízes primordiais da estirpe humana, são feiticeiras.
São velhas mães-feiticeiras as nossas mães ancestrais.
As Iá Mi são o princípio de tudo, do bem e do mal.
São vida e morte ao mesmo tempo, são feiticeiras.
São as temidas ajés, mulheres impiedosas.
As Oxorongá já viveram tudo o que se tem para viver.
As Iá Mi conhecem as fórmulas de manipulação da vida,
para o bem e para o mal, no começo e no fim.
Não se escapa ileso do ódio de Iá Mi Oxorongá.
O poder de seu feitiço é grande, é terrível.
Tão destruidor quanto é construtor e positivo o axé,
que é a força poderosa e benfazeja dos orixás,
única arma do homem na luta para fugir de Oxorongá.
Um dia as Iá Mi vieram para a Terra e foram morar nas árvores.
As Iá Mi fizeram sua primeira residência na árvore do orobô.
Se Iá Mi está na árvore do orobô e pensa em alguém,
este alguém terá felicidade, será justo e viverá muito na Terra.
As Iá Mi Oxorongá fizeram sua segunda morada
na copa da árvore chamada araticuna-da-areia.
Se Iá Mi está na copa da araticuna-da-areia e pensa em alguém,
tudo aquilo de que essa pessoa gosta será destruído.
As Iá Mi fizeram sua terceira casa nos galhos do baobá.
Se Iá Mi está no baobá e pensa em alguém,
tudo o que é do agrado dessa pessoa lhe será conferido.
As Iá Mi fizeram sua quarta parada no pé de Iroco, a gameleira-branca.
Se Iá Mi está no pé de Iroco e pensa em alguém,
essa pessoa sofrerá acidentes e não terá como escapar.
As Iá Mi fizeram sua quinta residência nos galhos do pé de Apaocá.
Se Iá Mi está nos galhos do Apaocá e pensa em alguém,
rapidamente essa pessoa será morta.
As Iá Mi fizeram sua sexta residência na cajazeira.
Se Iá Mi está na cajazeira e pensa em alguém,
tudo o que ela quiser poderá fazer, pode trazer a felicidade ou a infelicidade.
As Iá Mi fizeram sua sétima morada na figueira.
Se Iá Mi está na figueira e alguém lhe suplica o perdão,
essa pessoa será perdoada pela Iá Mi.
Mas todas as coisas que as Iá Mi quiserem fazer,
se elas estiverem na copa da cajazeira,
elas o farão,
porque na cajazeira é onde as Iá Mi conseguem seu poder.
Lá é sua principal casa, onde adquirem seu grande poder.
Podem mesmo ir rapidamente ao Além, se quiserem, quando estão nos galhos da cajazeira.
Porque é dessa árvore que vem o poder das Iá Mi
e não é qualquer pessoa que pode manter-se em cima da cajazeira.
Elas vieram para a Terra.
Eram duzentos e uma e cada qual tinha o seu pássaro.
Eram as mulheres-pássaros, donas do eié,
eram as mulheres-eleié, as donas do eié.
Quando chegaram, foram direto para a cidade de Otá
e os babalaôs mandaram preparar uma cabaça para cada uma.
Elas escolheram sua ialodê, sua sacerdotisa.
Foi a ialodê quem deu a cada eleié
uma cabaça para guardar seu pássaro.
Então, cada Iá Mi partiu para sua casa
com seu pássaro fechado na cabaça
e lá cada uma guardou secretamente sua cabaça
até o momento de enviar o pássaro para alguma missão.
Se é para matar, ele mata.
Se é para trazer os intestinos de alguém,
ele espreita a pessoa marcada para abrir seu ventre
e colher seus intestinos.
Se é para impedir uma gravidez,
ele retira o feto do ventre da mãe.
Ele faz o que lhe for ordenado e volta para sua cabaça.
Iá Mi, então, recoloca a cabaça em seu lugar secreto.
Mas, se a pessoa possui um encantamento contra a feiticeira,
ela deve dizer a seguinte fórmula:
“Que aquela que vos enviou para me pegar, não me pegue”.
Assim, por mais que tente o pássaro não poderá executar sua tarefa.
Sua dona terá de ir em busca do auxílio das outras Iá Mi.
Ela vai à assembléia e relata seu problema.
As ajés, as feiticeiras, devem trabalhar com ela,
porque não podem realizar sua tarefa sozinhas.
Então, Iá Mi leva um pouco do sangue da pessoa que quer prejudicar.
Todas as outras Iá Mi o põem na boca e o bebem.
Depois, elas se separam e não deixam dormir a vítima.
O pássaro é capaz de carregar um chicote,
pegar um cacete,
tornar-se alma do outro mundo,
e até mesmo pode Ter o aspecto de um orixá;
tudo para aterrorizar a pessoa à qual foi enviada.
Assim são as Iá Mi Oxorongá.
Esta é a sua história.

Conheça também:
(*)http://ile-alaketu.webnode.com.br/yami-osoronga/
https://sites.google.com/site/revistasankofa/sankofa2/ia-mi-oxoronga
http://www.mundodasmagias.com/orixas/yami/
http://opanteaonegro.blogspot.com.br/2009/12/as-maes-ancestrais.html


Fonte: Mitologia dos Orixás - Reginaldo Prandi - Cia. das Letras

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Lendas dos Orixás: Oxum

OXUM É TRANSFORMADA EM PAVÃO E ABUTRE
http://santeriachurch.org/the-orishas/
Oxum por Carla Nickerson

Nos primeiros tempos do mundo,
aconteceu uma rebelião dos orixás contra Olodumare.
Achando que o Senhor Supremo vivia muito distante de tudo,
os orixás decidiram não lhe prestar mais obediência,
dividindo entre eles mesmos todo o poder do axé (*),
pensando até mesmo em destronar Olodumare.
Quando a notícia da conspiração chegou aos ouvidos de Olorum,
sua reação foi simples e imediata:
retirou a chuva da Terra e a prendeu no Céu.
Não tardou para que o Aiê fosse atormentado por terrível seca.
Com a seca veio a fome e com a fome veio a morte.
Os homens começaram a morrer.
Logo o ronco das barrigas e a palidez das faces
começaram a falar mais alto
que o orgulho dos rebeldes e seus planos de levante.
Unanimamente os orixás decidiram ir a Olodumare
implorar por perdão, esperando que a chuva caísse de novo
e que tudo o mais na Terra voltasse ao normal.
Mas eles tinham um problema:
como chegar à inalcançável e distante casa do Senhor Supremo?
Enviaram  todas as espécies de pássaros,
que voavam para o Céu até o total esgotamento,
sem sequer se aproximar da casa de Olodumare.
As esperanças já se diluíam em tanto fracasso.
A seca e a fome devastavam a Terra e seus habitantes.
Foi quando Oxum resolveu intervir.
Transformada num belíssimo pavão,
ela se prontificou a ir até Olodumare.
Um tremor de gargalhadas sacudiu a Terra.
Como aquela criatura pretendia voar até o inalcançável?
Justamente aquela mimada, vaidosa e fútil ave!
"Vais acabar te machucando, gracinha", riam os orixás.
Mas como nada tinham a perder, aceitaram.
E lá, se foi Oxum-pavão seguindo em direção ao sol,
voando às alturas do Orum em busca do palácio do Senhor.
Voando mais alto e mais alto, a ave perdia as forças,
mas não desanimava de sua inquebrantável determinação.
O sol foi enegrecendo suas penas, muitas se queimaram.
As penas da cabeça ficaram ressequidas e quebradiças;
o pavão tinha queimaduras pelo corpo todo,
seu estado era miserável.
Mas lá ia Oxum voando em direção ao sol.
Quase morta, chegou às portas do palácio de Olodumare.
Olodumare se compadeceu da pobre criatura.
Acolheu-a, deu-lhe água e a alimentou.
Por que fizera tão impossível jornada,
ele perguntou ao pavão,
que de pavão perdera toda a graça e beleza.
Agora era uma ave feia, careca e de penas queimadas,
à qual os homens, quando ela voltou, chamaram de abutre.
Fizera o sacrifício pelas suas crianças, a humanidade,
ela explicou ao Ser Supremo.
Olodumare, penalizado com a pobre ave, deu-lhe a chuva
para que ela a devolvesse à Terra.
E nomeou o abutre mensageiro seu,
pois só ele vence a inalcançável distância em que está Olodumare.
O abutre então voltou à Terra trazendo a chuva de volta.
Oxum-abutre trouxe a chuva de volta
e com ela a fertilidade do solo e os alimentos.
E graças a Oxum a humanidade não pereceu.

(*) axé = força mística dos orixás, força vital que transforma o mundo.

Fonte: Mitologia dos Orixás - Reginaldo Prandi - Cia das Letras

terça-feira, 16 de abril de 2013

Lendas dos Orixás: Obá

OBÁ CORTA A ORELHA INDUZIDA POR OXUM
Obá por Carybé

Oba e Oxum competiam pelo Amor de Xangô
Cada semana, uma das esposas cuidava de Xangô,
fazia sua comida, servia à sua mesa.
Oxum era a esposa mais amada
e Oba imitava Oxum em tudo,
inclusive nas artes da cozinha,
pois o amor de Xangô começava pelos pratos que comia.
Oxum não gostava de ver Oba copiando suas receitas
e decidiu vencer definitivamente a rival.
Um dia convidou Oba à sua casa,
onde a recebeu usando um lenço na cabeça,
amarrado de modo a esconder as orelhas.
Oxum mostrou a Oba o alguidar onde preparava uma fumegante sopa,
na qual boiavam dois apetitosos cogumelos.
Disse à curiosa Oba que eram suas próprias orelhas,
orelhas que ela cortara, segredou cumplicemente.
Xangô havia de se deleitar com a iguaria.
Não tardou para que ambas testemunhassem o sucesso da receita.
O marido veio comer e o fez com gula, se fartou.
Elogiou sem parar os dotes culinários da mulher.
Oba quase morreu de ciúme.
Na semana seguinte, Oba preparou a mesma comida,
cortou uma de suas orelhas e pôs para cozinhar.
Xangô, ao ver a orelha no prato, sentiu engulhos.
Enjoado, jogou tudo no chão e quis bater na esposa, que chorava.
Oxum chegou nesse momento, exibindo suas intactas orelhas.
Oba num segundo entendeu tudo, odiou a outra mais que nunca.
Envergonhada e enraivecida, precipitou-se sobre Oxum
e ambas se envolveram numa briga que não tinha fim.
Xangô já não suportava tanta discórdia em casa
e esse incidente só fez aumentar a sua raiva.
Ameaçou de morte as briguentas esposas, perseguiu-as.
Ambas tentaram fugir da cólera do esposo.
Xangô procurou alcança-las, lançou o raio contra elas,
mas elas corriam e corriam, embrenhando-se nos matos,
ficando cada vez mais distantes, mais inalcançáveis.
Conta-se delas que acabaram por ser transformadas em rios.
E de fato, onde se juntam o rio Oxum e o rio Oba,
a correnteza é uma feroz tormenta
de águas que disputam o mesmo leito.


Fonte: Mitologia dos Orixás - Reginaldo Prandi - Cia. das Letras
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